18.7.14

tudo bem, tal e qual,

e é sempre outra cidade

velha

17.7.14

I Don't Know What I Can Save You From



A última vez que passei por aqui
pensava vagamente em Nietzsche, Deleuze, Derrida
sem nada entender
e aproveitava, como hoje, um azul que o outono traz
(e depois leva pra lá)

A última vez que passei por aqui
pensei exatamente o que eu deveria ter dito
, mas com muitos minutos de atraso
(e nunca mais fez sentido falar)

A última vez que passei por aqui
foram muitas
era tudo diferente, esse prédio, essa casa
isso era assim, aquilo era assado,
nem reparei
na cidade como uma foto antiga
ela cada vez mais nova
eu cada vez mais velha

(ambas um pouco pior)

12.7.14



Deixe de lado esse baixo astral
Erga a cabeça
Enfrente o mal
Que agindo assim
Será vital para o seu coração

É que em cada experiência
Se aprende uma lição
Eu já sofri por amar assim
Me dediquei mas foi tudo em vão

Pra que se lamentar
Se em sua vida pode encontrar
Quem te ame com toda força e ardor
Assim sucumbirá a dor (tem que lutar)

Tem que lutar
Não se abater
Só se entregar
A quem te merecer

Não estou dando nem vendendo
como o ditado diz
o meu conselho é pra te ver feliz

8.7.14



"A alegria está na luta, na tentativa, no sofrimento envolvido e não na vitória propriamente dita"

Mahatma Gandhi [na foto, com o time Passive Resisters, 1913]

4.6.14


ROMERO BRITTO, o rei das cores


"A minha arte é sobre o amor e a alegria."
Existe uma conexão entre um brasileiro que pinta seus móveis e carro com a estampa inconfundível de cores vibrantes e outro que enfeita seu muro, sua rua, sua casa, com o mesmo padrão. Algo conecta profundamente dois brasileiros cansados do cinza da cidade e do bege sujo da sua pobreza que procuram reformar o mundo carregando forte nas tintas e padrões, usando uma fórmula fácil, pueril - mas muito eficaz.

Existe sim, uma conexão firme, natural e sincera entre os dois. Mesmo que o carro do primeiro seja uma Ferrari de 1,5 milhão de reais e a alegre estampa que enfeita a casa do segundo tenha vindo em forma de lata de panetone, copo de requeijão, ou seja apenas uma imitação. Essa conexão existe porque tem a mesma origem, a mesma premissa, a mesma intenção. E simplesmente, porque em ambos os casos, para seu  juízo estético, romerobrittozar o mundo significa: torná-lo melhor.
“Na condição de criança pobre no Brasil, tive contato com o lado mais sombrio da humanidade. Passei a pintar para trazer luz e cor para minha vida. Minha família era muito pobre. Criar era um refúgio: eu pintava um mundo colorido, diferente do meu”





Foi assim que essa identidade visual infantil, colorida e brasileira, com origem na periferia de Recife, chegou a Miami (nossa ensolarada e cafoníssima embaixada nos EUA), se meteu em galerias respeitadas, em casas de celebridades, fez a meia-volta e voltou pra se espalhar pelo seu país de origem. E - para horror da elite cultural, de artistas conceituais mal remunerados, de designers minimalistas e adeptos do estilo nórdico de decoração - caiu no gosto popular.



E - os síndicos do bom-gosto curtindo ou não, achando que isso é arte ou não** - de um jeito torto, Romero Britto inventou (ou reinventou) a cara de um Brasil mais colorido. Reproduzida, distorcida e replicada à exaustão por dentro ou fora das casas, em marcas famosas, semi-famosas, em artesanatos, móveis, cangas, panos de prato, pratos e copos, bolos, unhas, próteses dentárias, aventais, a tendência se disseminou de uma forma que nem em sonhos o artista que, quando jovem, pensava em ser diplomata 'para representar o Brasil', poderia imaginar.

A melhor obra do Romero Britto é justamente essa:
a que não é ele quem faz.


O avesso do avesso do avesso do avesso do avesso

(*) Galeria de esquizoídolos
(**) Para avançar na discussão estética, recomendo o texto "Por que é fácil odiar Romero Britto", de Rafael Trabasso, publicado no IdeaFixa


27.5.14

O melhor do futebol argentino

Complexo de vira-lata? Na Argentina não tem quem o carregue. Dados a tangos, milongas, odes, poemas épicos, narrativas heróicas - e muito mais pro insurgente errante e casca-grossa Martin Fierro do que pro docemente indolente Macunaíma, mais pro dramático Carlos Gardel do que para o encantado Tom Jobim - o argentino é, antes de tudo, um exagerado. E se fala mal de si mesmo, é só pra admitir que são, sim, prepotentes - mas não sem acreditar que no fundo tem um pouco de razão pra ser.

Esse espírito combatente, nacionalista e orgulhoso de um povo indócil que expulsou os colonizadores espanhóis por mais de 50 anos de suas terras encontrou no futebol o campo ideal para travar seus épicos contemporâneos; e no bronco e genial Maradona, meio índio, meio italiano, a sua mais completa tradução.

Dito isso, é natural que, ainda que seu futebol nem sempre seja o melhor do mundo, nada supere em emoção as propagandas com esse tema que são produzidas por lá. Seja para uma marca de cerveja, refrigerante ou oficiais, o espírito de Coração Valente está presente em cada uma delas, a cada minuto, em cada um de nós.

Na seleção abaixo, minhas favoritas:

A vida é uma partida de futebol:


O abraço da alma é pra chorar:


O outro lado do complexo de vira-lata:


Deus fala com argentinos, o que pode ser mais megalomaníaco?

(e uma excelente paródia do CQC local)

E este é de quando a Argentina proibiu torcida contrária nos jogos:


E o imperdível, insuperável épico:


Bendito sea el mundial con que soñamos
Bendito cada nombre que ha sido designado
Bendito los pibes que siempre sacamos
El peso de la historia, el respeto ganado

Maldito sean los recuerdos dolorosos
Maldita la impotencia, la injusticia que vivimos
El volvernos a casa cada uno por su lado
Las finales sin jugar y quedarme en el camino

Bendita la anestesia general a los dolores
La tristeza que curamos con abrazos
Las gargantas que se rompen por los goles
El sentirnos los mejores por un rato

Malditos los sorteos y los grupos de la muerte
Los controles sin azar que asignaron nuestra suerte
Malditos los mezquinos que juegan sin poesía
Los que pegan, los que envidian, los que rompen y lastiman

Bendito sea el orgullo con el que entramos a la cancha
El potrero y la pelota no se manchan
La tv que repite la gambeta
Inflar las redes de los otros, inflar el pecho de los nuestros, merecer la camiseta

Los turistas, los cronistas, los sponsors, los amigos,
el himno y las mujeres siguiendo los partidos
Bendita las cabalas que dan resultado
Las risas y el llanto que guardaremos tanto

Y bendito ese momento que nos regala el fútbol
De poder cambiar nuestro destino
Y sentir otra vez y frente al mundo
Lo glorioso y lo groso de ser argentino!

* * *

P.S.: no entanto, torço mesmo para o Brasil ganhar, afinal #VaiTerCopa

Da arte de conversar

As regrinhas de conversação abaixo são de um livro publicado em 1875: A Gentleman’s Guide to Etiquette (Um Guia de Etiqueta para Cavalheiros, em tradução livre), de Cecil B. Hartley.

1. Ainda que convencido de que seu oponente está errado, renda-se graciosamente, evite seguir com a discussão, ou deliberadamente mude de assunto, mas não defenda obstinadamente sua opinião até ficar irritado… Há muitos que, expressando opinião como se fossem leis, defendem posições com frases do tipo “Se eu fosse presidente, ou governador, iria…”, — e embora pelo calor do argumento só comprovem que são incapazes de governar o próprio temperamento, seguirão tentando persuadi-lo de que são perfeitamente competentes para liderar a nação.

2. Mantenha, se puder, uma opinião política fixa. Não a exponha em todas as ocasiões e, acima de tudo, não se proponha a forçar os outros a concordar com você. Ouça calmamente as ideias deles e, se não puder concordar, discorde polidamente e consiga que seu oponente, porquanto considere suas opiniões erradas, se veja obrigado a reconhecer que você é um cavalheiro.

3. Nunca interrompa ninguém; é rude apontar uma data ou um nome que a pessoa esteja hesitando em dizer, a não ser que te peçam para fazer isso. Outro erro crasso de etiqueta é antecipar algum ponto da história que a pessoa está contando, ou terminar a frase para roubar o final para si. Algumas pessoas justificam isso dizendo que o orador estava estragando uma boa história, mas isso não justifica. É muito grosseria deixar um homem entender que você não o considera apto a terminar uma anedota que ele começou.

4. É falta de educação se mostrar cansado durante o discurso de outra pessoa, e é muita grosseria olhar para o relógio, ler uma carta, folhear um livro, ou qualquer outra ação que mostre que você está entediado com o orador ou com o assunto.

5. Nunca fale quando outra pessoa está falando, e nunca eleve a voz para cobrir a dos outros. Não fale de maneira ditatorial e faça com que sua conversa seja sempre amável e franca, livre de afetações.

6. Nunca, a não ser que peçam, fale dos seus negócios ou profissão em público. Confinar a conversa apenas à sua própria especialidade é vulgar. Faça o assunto se adequar à companhia. Conversas leves e alegres são, de vez em quando, tão desnecessárias quanto sermões numa festa, então deixe que o assunto seja grave ou feliz de acordo com o tempo e lugar.

7. Numa briga, se você não tem como reconciliar as partes, se abstenha. Você certamente faria um inimigo, talvez dois, ao tomar um lado numa discussão onde ambos os lados já perderam a calma.

8. Nunca chame a atenção apenas para si. É rude entrar numa conversa com um grupo e tentar tirar algum dos participantes dele para um diálogo.

9. Um homem inteligente é geralmente modesto. Ele pode sentir que é intelectualmente superior em sociedade, mas não procura fazer os outros se sentirem inferiores, nem mostrar sua vantagem em relação a eles. Ele discutirá com simplicidade os tópicos propostos pelos outros, e evitará aqueles que os outros não consigam discutir. Tudo que ele diz é marcado pela polidez e deferência aos sentimentos e opiniões dos outros.

10. Escutar com interesse e atenção é uma conquista tão válida quanto falar bem. Ser bom ouvinte é indispensável para ser um bom orador, e é no papel de ouvinte que você você consegue detectar mais facilmente se um homem é educado para a vida social.

11. Nunca escute a conversa de duas pessoas que se afastaram de um grupo. Se elas estão tão próximas que não há como evitar ouvi-las, você pode, apropriadamente, mudar de lugar.

12. Faça que sua parte da conversa seja tão modesta e breve quanto consistente com o assunto em debate, e evite longos discursos e histórias tediosas. Se, no entanto, outra pessoa, particularmente mais velha, conta um caso mais longo, escute respeitosamente até que ela termine, antes de falar novamente.

13. Fale pouco de si. Seus amigos conhecerão suas virtudes sem forçá-lo a nomeá-las, e você pode estar certo de que é igualmente desnecessário expor você mesmo seus defeitos.

14. Se você aceita a lisonja, deve também aceitar quando inferem que você é bobo e convencido.

15. Ao falar de seus amigos, não compare uns aos outros. Fale dos méritos de cada indivíduo, mas não tente aumentar as virtudes de um ao contrastá-las com os vícios de um outro.

16. Evite, numa conversa, todo assunto que possa ferir alguém ausente. Um cavalheiro nunca calunia ou dá ouvidos à calúnia.

17. O homem mais sagaz se torna chato e mal educado quando pretende atrair toda a atenção de um grupo no qual deveria interpretar um papel mais modesto.

18. Evite frases feitas, e faça citações raramente. Elas às vezes temperam uma conversa, mas quando se tornam hábito constante, são extremamente tediosas e de mau gosto.

19. Não seja pedante; é uma marca, não de inteligência, mas de estupidez.

20. Fale sua língua corretamente; ao mesmo tempo não seja maníaco em relação à formalidade e correção das frases.

21. Nunca repare se outros cometem erros de linguagem. Pontuar isso verbalmente ou por olhar, naqueles ao seu redor, é falta de educação.

22. Se o assunto é de trabalho ou científico, evite o uso de termos técnicos. São de mau gosto, porque muitos não entenderiam. Entretanto, se você os usa inconscientemente numa frase, não cometa o erro maior de explicar o significado. Ninguém o agradecerá por destacar-lhes a ignorância.

23. Ao conversar com um estrangeiro que não fale Inglês corretamente, escute com atenção, mas não sugira uma palavra ou frase se ele hesitar. Acima de tudo, não demonstre por ação ou palavra se está impaciente com as pausas e erros do orador. Se você entender a língua dele, avise isso assim que se falarem; não é uma exibição do seu conhecimento, mas uma gentileza, já que um estrangeiro ficará feliz em falar e ouvir a língua materna num país estranho.

24. Tenha cuidado, em sociedade, para nunca se colocar no papel de bufão, ou logo você será conhecido como o “engraçado” da turma, e nada é mais perigoso para a dignidade de um cavalheiro. Você se expõe à censura e ao ridículo, e pode estar certo que, para cada pessoa que ri com você, duas riem de você, e para cada um que o admira, dois assistem a tudo com reprovação.

25. Evite se gabar. Falar de dinheiro, boas relações ou do luxo à sua disposição é de mau gosto. É indelicado falar da sua intimidade com pessoas importantes. Se os nomes deles ocorrerem naturalmente no curso da conversa, tudo bem; mas ficar constantemente citando, “meu amigo, o Governador,” ou “meu amigo íntimo, o Presidente,” é pomposo e de mau gosto.

26. Quando se recusar a fazer piadas, não demonstre desprezo pela alegria alheia. É mal educado propor assuntos graves quando uma conversa prazerosa está ocorrendo. Junte-se à diversão e esqueça seus problemas mais graves, e você será mais popular do que se tentar converter a alegria inocente em discussão grave.

27. Quando em sociedade com acadêmicos, não os questione sobre seus trabalhos. Mostrar admiração por um autor é de mau gosto, mas você pode ser gracioso se, com um citação ou referência, mostrar que é um leitor e que aprecia a obra.

28. É extremamente rude e pedante, numa conversa geral, fazer citações em língua estrangeira.

29. Usar frases de duplo sentido não é cavalheiresco.

30. Se estiver ficando irritado com a conversa, mude de assunto ou fique em silêncio. Você pode dizer, num arroubo de paixão, palavras que nunca usaria num momento mais calmo, e as quais você lamentaria depois de dizer.

31. “Nunca fale de cordas para um homem cujo pai foi enforcado” é um ditado vulgar, mas popular. Evite assuntos que possam ferir personalidades e assuntos de família. Evite, se puder, conhecer os segredos de seus amigos, mas se algum lhe for confidenciado, nunca o revele a terceiros.

32. Se você é viajado, não fale constantemente disso. Nada é mais cansativo do que um homem que começa todas as frases com, “Quando estive em Paris,” ou, “Na Itália eu vi…”

33. Quando fizer perguntas sobre pessoas que não conhece num salão, evite usar adjetivos; ou você pode perguntar à uma mãe, “Quem é a garota feia, esquisita?” e receber como resposta, “Senhor, aquela é minha filha.”

34. Evite a fofoca; numa mulher é detestável, mas num homem é simplesmente desprezível.

35. Não ofereça assistência ou conselho à sociedade geral. Ninguém irá agradecê-lo por isso.

36. Evite a lisonja. Um elogio delicado é permitido numa conversa, mas o excesso é rude, vulgar, e para pessoas sensíveis, repugnante. Se você lisonjeia seus superiores, eles deixam de confiar em você, acreditando que você tem algum motivo egoísta; se lisonjeia damas, elas o desprezam, por pensarem que você não tem outro assunto.

37. Uma dama de bom senso se sentirá mais elogiada se você conversar com ela sobre assuntos interessantes e instrutivos, ao invés de apenas sobre sua beleza. Neste caso ela concluirá que você a considera incapaz de discutir assuntos elevados, e você não pode esperar que ela fique satisfeita em ser considerada uma pessoa boba e vaidosa, que precisa ser adulada para ficar de bom humor.

Daqui: http://www.artofmanliness.com/2013/06/19/37-conversation-rules-for-gentleman-from-1875/

24.5.14

You're Gonna Make Me Lonesome When You Go



Feliz aniversário, Mr. Bob

22.4.14


JOSUÉ DE CASTRO, homem-caranguejo


O médico, geógrafo e sociólogo pernambucano Josué de Castro foi pioneiro no combate à fome no Brasil e no mundo. Apresentou proposta de ações de incentivo à agricultura familiar e à criação dos restaurantes populares; foi presidente do Fundo para a Agricultura e Alimentação da ONU e indicado duas vezes ao Prêmio Nobel da Paz.

Seu nome chegou a ser cogitado para Ministério da Agricultura no governo do João Goulart, o que só prova o quanto o Jango era um cara a fim de fazer as coisas certas - no momento errado. Onze dias após o golpe militar, o nome de Josué estava na primeira lista de cassações da ditadura. Tachado de 'notório comunista', seus livros foram proibidos nas universidades, seu nome censurado e proibido na imprensa por décadas.
"A fome é, conforme tantas vezes tenho afirmado, a expressão biológica de males sociológicos."

"Nenhum fator é mais negativo para a situação de abastecimento alimentar do país do que a sua estrutura agrária feudal, com um regime inadequado de propriedade, com relações de trabalho socialmente superadas e com a não utilização da riqueza potencial dos solos. Apresenta-se deste modo a Reforma Agrária como uma necessidade histórica nesta hora de transformação social que atravessamos como um imperativo nacional."

"A paz depende mais do que nunca do equilíbrio econômica do mundo. (...) Os ingredientes das guerras são o ouro e as bombas atômicas. O ouro acumulado às custas do sofrimento e  miséria de dois terços da humanidade. E as bombas, produzidas pela aplicação pervertida da ciência a serviço da destruição e da morte. Os ingredientes da paz são: o pão e o amor."


Josué de Castro, Cidadão do Mundo, de Silvio Tendler, 1994

(*) Galeria de esquizoídolos

21.4.14


MILTON SANTOS, a natureza do espaço

"Hoje, com uma pequena aparelhagem informática, eletrônica, com meios limitados, também se faz opinião; também se produzem coisas centrais na reelaboração da História." - Milton Santos, no excelente documentário Encontro com Milton Santos: O mundo global visto do lado de cá, lançado em 2006, filmado em 2001 - Pré-Era Lula, portanto.
Mídia independente, safári urbano, rolezinho de sem-teto no shopping, manifestações, gentrificação, falta de água, cultura colonizadora, globalitarismo. Está tudo aí:



"O Estado é algo cada vez mais indispensável, porque as fontes geradoras de diferença, desigualdade são muito mais fortes do que no passado, Então, para desmanchar essas diferenças, reduzir essas desigualdades, é necessário um Estado que intervenha; um estado socializante, por conseguinte."

Gosto muito desse cara.

(*) Galeria de esquizoídolos

An innocent man in a living hell



That's the story of the Hurricane
But it won't be over till they clear his name
And give him back the time he's done
Put in a prison cell, but one time he could-a been
The champion of the world

R.I.P. Rubin Carter

Fucking Tourist



Fora, haoles.

http://jolipunk.over-blog.com

20.4.14



Feliz páscoa, galere

19.4.14

Não leva jeito pro sarcasmo?
Vamos a-do-rar te ajudar com isso.
http://ow.ly/2CKDJ

Reconhecer ironia, até você vai conseguir:
http://ow.ly/2CKBZ

#sarcasmsociety

17.4.14



Vaya con Dios, Gabriel García Márquez :'-|

(Aqui: http://bit.ly/1netabO - ilustrações de Carybé para Cem Anos de Solidão, via Rodrigo Terra Vargas)

4.4.14

DDA e outras bossas



Psicopatologias ilustradas por Boris Artzybasheff.

27.3.14

Postal de Amor



o mar vai e volta
com um gosto
do licor que ficou
na tua boca
do suor que ficou
na minha boca
vai deixando minha
parda voz, parda voz
parda voz, parda voz
de louca

Como viver sem ironia (carapuças para todos)

"Se a ironia é o éthos de nossa época – e ela de fato é –, então o hipster é o nosso arquétipo do estilo de vida irônico."



"O que significaria vencer o empuxo cultural da ironia? Afastar-se do irônico representa dizer o que se pensa, pensar o que se diz e considerar a seriedade e a declaração direta como possibilidades expressivas, apesar dos riscos inerentes. Significa assumir o cultivo da sinceridade, da humildade e do autoapagamento, rebaixando o frívolo e o kitsch em nossa escala coletiva de valores. E pode incluir também fazer um inventário honesto de si próprio."

Como viver sem ironia - por Christy Wampole

10.3.14

Pretos Gêmeos @ Feira Plana

A Feira Plana que rolou final de semana no MIS foi coisa linda de meu deus: vendemos tudo, comprei montes de artes e zines, conheci pessoas e projetos incríveis, revi montes de amigos queridos, foi demais.

Gratidão eterna à Bia Bittencourt, por essa excelente ideia de evento e especialmente pela energia de correr atrás e fazer acontecer. E obrigada de coração a todos que passaram por lá <3

(Ah, e quem não conseguiu comprar os cartazes e desenhos por motivos de #soldout pode encomendar pelo site: http://www.evauviedo.com.br)


Os rabiscos que viraram clichês de impressão para o livro Mnemomáquina, e que viraram cartazes depois


A aplicação dos clichês do livro de Ronaldo Bressane


Barraquinha dos Pretos Gêmeos na Feira Plana

(*) Pretos Gêmeos é a empresa fictícia de Eva Uviedo e Ronaldo Bressane, unidos a qualquer tempo por ideias, planos, festas, negócios.

7.3.14

O futuro está no passado

Primeiro veio o livro.
Não, não.

Primeiro o Lorenzo, filho do Ronaldo, acordou no Copan e disse que tinha visto um tubarão voador pela janela.

(E eu que achava que essa espécie estivesse extinta desde os anos 80... Mas já há muito tempo perseguia o cardume de peixes voadores por aí.)

Depois surgiu o tubarão. Esse, que abracei, botei no colo, ninei. E as mulheres com cabelos de tentáculos, que também já rondavam há muito esse lado da cidade.

Enquanto isso, o tubarão que sonha, o homem perdido e a mulher-polvo dormiam o sono intranquilo dos personagens não-publicados. Junto com o gorila mutante, o escritor morto de modo misterioso, os escritores que se tornaram imortais, o gordinho nerd e os irmãos que viajam pelo interior do Brasil em busca de um amigo imaginário, e muitos outros.

Assim é o primeiro romance do Ronaldo Bressane, que veio ao mundo sete anos depois do tubarão cruzar os céus do centro de SP. Os tempos se cruzam, e entre passado, presente e futuro, sobrepostos em camadas e bagunçados cuidadosamente, contados por 15 narradores diferentes; quando vamos ver, tudo já aconteceu.

Então, sim, veio o livro:



O primeiro romance de Bressane, Mnemomáquina, editado artesanalmente pela Demônio Negro, com capa em tecido escarlate [como os códices do século XIV], impressão em clichês tipográficos [técnica do século VIII], toda em fonte Garamond [também datada do século XVI], vinhetas gráficas em uma cor e acabamento inteiramente à mão. A tiragem, única e numerada, restringe-se a 40 exemplares, depois acabou. Segundo o autor, "Há livros demais no mundo — e poucos podem ser passados direto do escritor ao leitor, de mão a outra. Como antigamente. Como pode voltar a acontecer no futuro."

E assim os seres fantásticos e imaginários que me assombravam se juntaram aos outros personagens, em forma de vinhetas, para ilustrar os capítulos do livro; e se desdobraram em uma série limitada de posters e cartões:



Daí veio amanhã:
quando enfim tubarões, polvos, seres fantásticos e náufragos em terra firme estarão juntos à venda na banca dos Pretos Gêmeos na Feira Plana (na entrada do MIS, estande 11 - Sáb. (8) e dom. (9): das 12h às 20h. Grátis).

Vem que vai ser massa.

* * *

Perdeu a feira? Chegou e já tinha acabado tudo? Pode encomendar suas artes aqui: 
http://www.evauviedo.com.br/Pretos-Gemeos-Feira-Plana

27.2.14

18.2.14

In the middle of a cloud I call your name



A aniversariante de hoje não só é GÊNIA* como inspirou a que é, pra mim, a mais linda canção de amor de todos os tempos.

Oh, Yoko

17.2.14



sei que assim falando pensas
que esse desespero é moda

27.1.14

Onde a dor não tem razão



São Paulo, aniversário da cidade >> 01 (hum) MANIFESTANTE com potencial destrutivo moderado, portando um estilingue e quatro pacotes de bolinhas de gude sendo ESPANCADO > por 50 fãs do PAULINHO DA VIOLA, incluindo > 1 agressor que dava bordoadas com um par de MULETAS > 4 seguranças ligeiramente incompetentes tentando proteger o desgraçado da turba de cidadãos DE BEM repentinamente REVOLTADOS > sendo observados por uma MULTIDÃO e mais > dezenas de integrantes da guarda municipal que só não estavam em menor número do que > o ENXAME de fotógrafos e videomakers que captava a cena, sem se abalar. "NINGUÉM vai estragar a nossa festa. Se esses caras voltarem aqui, vamos dar PORRADA".




p.s.: pra assistir ouvindo:

25.1.14

a melhor cidade


leia na minha camisa: i love you

sabe na paulista, perto da brigadeiro luis antônio, tem um predinho com tijolos vazados amarelos - não sei explicar bem os tijolos, são de uma época, x. quando você passar por eles vai reconhecer.
eu tinha acho uns sete anos, tinha acabado de chegar no brasil
estávamos meio de favor aqui e ali, não lembro bem onde, mas era nessa área - comprávamos coisas pro café da manhã no jumbo eletro e saíamos pra andar
eu sempre usava umas camisetas brancas do meu pai como vestido
com um cinto vermelho de verniz
e lembro do sol da manhã batendo no rosto, na paulista
(o sol nas bancas de revista)
de olhar pra cima, pensando 'UAU'.
'a melhor cidade, a melhor cidade'
não sei da primeira vez que ouvi essa música;
mas lembro desse momento, de ter sete anos e ter entendido tudo:
do sorvete, da lanchonete, do azul
da paz da cidade, da MELHOR cidade
dos tijolos amarelos e o sol batendo nos carros, a gasolina
e a camisa, e a cidade
a melhor cidade da américa do sul


[publicado originalmente aqui]

16.1.14

hungarians do it better


1938 : Hungarian Folk Dancers (Czardas)

16.11.13



'Petista' militante desde os anos 80, não estou triste hoje pela prisão do José Dirceu e José Genoíno.

Me entristece, e não é de hoje, saber que os meandros do sistema político deste país ainda permitam, aliás tornem quase que padrão, os desvios, a corrupção, o caixa 2 e outras práticas vergonhosas.

Me entristece saber que o governo que, a meu ver, conseguiu conquistas incomparáveis no campo social não conseguiu isso sem sujar as mãos.

Me entristece ver a imprensa dar tanta atenção ao Mensalão, chamando-o de 'maior escândalo da História' e quase NENHUMA aos escândalos de corrupção tucanos, que oneraram os cofres públicos pelo menos dez vezes mais.

Me entristece por exemplo, saber que Paulo Maluf, procurado pela Interpol, inegavelmente tendo enriquecido de forma ilícita, não esteja nem de longe correndo o risco de ser preso.

Me deixa indignada - e preocupada - ver o judiciário usar mal e porcamente o recurso do domínio do fato, de uma maneira que nem o Ives Gandra Martins nem o autor da teoria conseguiram defender, condenando absolutamente sem provas um dos réus. Mesmo que ele seja culpado.

Me deixa triste lembrar as humilhações públicas que sofreu Luiz Gushiken, antes de ser inocentado.

[a lista poderia continuar ad infinitum]

Se de fato os réus do mensalão foram culpados, não me permito ficar triste com sua condenação (dura lex, sed lex); e nem concordar em tentar transformá-los em mártires ou ~presos políticos~ nem nada do gênero. Pode ser perseguição, implicância, até injustiça - mas prisão política não é.

Porém, noves fora, por comparação com outros partidos, outros governos, e por acreditar que as medidas tomadas nas questões primordiais como redução da miséria, taxa de analfabetismo, injustiça social e outras tantas do governo do PT são as mais acertadas - inclusive pelos seus resultados; e mesmo um tanto decepcionada com os parcos avanços em áreas como reforma agrária, ambientalismo, legalização das drogas etc, posso dizer:

Não, até o momento eu não perdi, nem por um minuto, a vontade, o orgulho de ser petista.

[foto: Débora Cruz]

4.11.13

31.10.13

Selvagem


Um homem imagina que é um pássaro. Está de tal maneira convencido de que é um pássaro, que agita os braços como se batesse as asas. E imita com impressionante graça o arrulho da rola selvagem. E faz biquinho. E sobe às árvores e aos beirais. E alimenta-se de milho e de outras sementinhas. E faz a corte a outras rolas. E é morto com um tiro certeiro de caçadeira.






[a tradição dos homens de vestir-se como animais e monstros selvagens desde o neolítico nunca deixou de existir e ainda é muito viva nos dias de hoje. por dois anos, o fotógrafo francês Charles Fréger viajou por 19 países europeus para tentar capturar o espírito do que ele chama de europa tribal, em sua série "wilder mann". o que ele encontrou: uma enorme variedade de rituais pagãos, principalmente relacionados com o solstício de inverno e de renovação da primavera - e muito similares entre si]


+ o fotógrafo tem uma série de fotos de fantasias de carnaval do Brasil:
http://www.charlesfreger.com/works/index.php?UserSerie=Fantasias

5.10.13

Parada do velho novo



Eu estava sobre uma colina e vi o Velho se aproximando, mas ele vinha como se fosse o Novo.

Ele se arrastava em novas muletas, que ninguém antes havia visto, e exalava novos odores de putrefação, que ninguém antes havia cheirado.

A pedra passou rolando como a mais nova invenção, e os gritos dos gorilas batendo no peito deveriam ser as novas composições.

Em toda parte viam-se túmulos abertos vazios, enquanto o Novo movia-se em direção à capital.

E em torno estavam aqueles que instilavam horror e gritavam: 'Aí vem o Novo, tudo é novo, saúdem o Novo, sejam novos como nós!' E quem escutava, ouvia apenas os seus gritos, mas quem olhava, via pessoas que não gritavam.

Assim marchou o Velho, travestido de Novo, mas em cortejo triunfal levava consigo o Novo e o exibia como Velho.

O Novo ia preso em ferros e coberto de trapos; estes permitiam ver o vigor de seus membros.

E o cortejo movia-se na noite, mas o que viram como a luz da aurora era a luz de fogos no céu. E o grito: 'Aí vem o Novo, tudo é novo, saúdem o Novo, sejam novos como nós!' seria ainda audível, não tivesse o trovão das armas sobrepujado tudo.

-- Bertold Brecht (via /filipesaraiva)

28.9.13

Minha filha falou que queria falar de um assunto polêmico com potencial pra estragar o dia, eu "QUÊ, VAI DEFENDER ALTERNÂNCIA DE PODER?"

Era: viajar pra casa da vó nas férias (2014 vai ser um longo ano).

20.9.13



CONDE CHIQUINHO SCARPA



Cavalheiro da mais fina estirpe inventada, no fundo não é mais que um conde papalino - honraria decorativa e, segundo alguns, não-transmissível, conferida pela Igreja Católica ao seu pai, em retribuição a donativos; porém ostenta seu título e herança com mais garbo e galhardia que qualquer membro legítimo da família Real luso-brasileira. Em uma deliciosa combinação de luxo e riqueza com sincera cafonice, exibe sua vida no Facebook como todos nós, ora mostrando 'seu melhor', em caricatos trajes brancos e chapéu panamá durante viagem pelo Mediterrâneo, ora revelando puerilmente intimidades como seu quarto de dormir. Nunca nós, os mais de 100 mil seguidores do seu perfil, estivemos tão próximos da nobreza antes.



Em Scarpa, até a afetação é genuína. Cuecas com monogramas, suspensórios, roupas sob medida, lenços no bolso e abotoaduras, seus trajes e maneiras são tão típicos do que nós, plebeus, entendemos por um conde, que parecem uma caricatura. Chiquinho, não sendo conde, imita um conde à perfeição - tanta, que parece nem ser verdade (e realmente não é). O que pode ser mais autêntico do que isso?

Francisco não precisaria trabalhar; seu pai, também Francisco, falecido recentemente aos 103 anos, era rico suficiente para poupar seus descendentes dos dissabores da vida proletária por várias gerações. Mas trabalha, administrando empresas da família e como instrutor de aikidô - mais uma de suas excentricidades. No entanto, último dos Scarpas, sua verdadeira função social é ser playboy - ou como ele prefere, bon vivant; Chiquinho mereceria ser tombado como patrimônio cultural intangível de uma high society em extinção. Seus romances memoráveis, suas aventuras em Saint Tropez, entrevistas bombásticas, casamentos e divórcios midiáticos, misteriosos problemas de saúde e financeiros, quedas espetaculares e voltas por cima em rodopios morais sem derramar um pingo da taça de espumante nos transformam em espectadores privilegiados de uma adorável e legítima comédia de costumes.

Sua vocação para o humor e a polêmica  não é de hoje: em 1991 foi alvo de discursos indignados na Câmara dos Deputados por ter declarado, em entrevista para a Interview, ser dono de uma "criação de anões", que alugaria para trabalhar como garçons. Obviamente era mentira, mas o Conde precisou se explicar. Assim como precisou pedir desculpas ao Rainier III de Mônaco por ter insinuado um caso de amor com a princesa Caroline - outra de suas piadas incompreendidas.

Da vida nada se leva
Esta manhã o Conde colocou mais uma cereja em cima do bolo de sua incomum biografia. Depois de uma semana em que virou novamente assunto na mídia, nas redes e das conversas de bar ao anunciar uma excentricidade sem precedentes - enterrar no jardim um carro de sua coleção, avaliado em R$ 1,5 milhão, a exemplo dos faraós - Chiquinho revelou de maneira teatral, para dezenas de veículos de imprensa, entre jornais, revistas e emissoras de TV: era tudo uma farsa por uma boa causa: atrair a atenção para uma campanha de doação de órgãos.

“Eu fui julgado por querer enterrar uma Bentley, mas a verdade é que a grande maioria das pessoas enterra coisas muito mais valiosas que meu carro. Elas enterram corações, rins, fígados, pulmões, olhos. Isso sim que é um absurdo. Com tanta gente esperando por um transplante, você ser enterrado com seus órgãos saudáveis que poderiam salvar a vida de várias pessoas, é o mais desperdício do mundo. O meu Bentley não vale nada perto disso. Nenhuma riqueza, por maior que seja, é mais valiosa que um único órgão, porque nada é mais valioso do que uma vida", anunciou Scarpa.



Sim; nada é mais valioso do que uma vida. E uma vida bem vivida, melhor ainda. Só gente muito mal-humorada e de visão limitada pra não apreciar todas as reviravoltas da saga do Conde Scarpa em nome de uma visão reducionista da luta de classes.

E se a vida do Conde, como a de todos nós, não se mede em valores materiais e sim em boas histórias pra contar, embora já tendo recebido duas extrema-unções, Scarpa segue ainda construindo, de anedota em anedota, seu verdadeiro legado para o mundo - mesmo não realizando seu maior sonho: "Quero ter filhos. Se eu não tiver filhos, a família Scarpa morre comigo. Mas quer saber? Se terminar comigo está bem terminado."

E quem há de discordar?

* * *
Leia mais: perfil do Conde, por Mario Mendes (no fim da reportagem); e mais detalhes das travessuras do enfant terrible Chiquinho, por Cristina Ramalho para a Vogue RG

(*) Galeria de esquizoídolos

18.9.13

Dentro da baleia a vida é tão mais fácil



A baleia é sua casa, sua cidade,
Dentro dela guarda suas gravatas, seus ternos de linho.

Dentro da baleia a vida é tão mais fácil,
Nada incomoda o silêncio e a paz de Jonas.

Quando o tempo é mau, a tempestade fica de fora,
A baleia é mais segura que um grande navio.

Da série Coisas que amo: "Mestre jonas" interpretado pelos Mulheres negras no plano-sequência de abertura do filme Durval Discos descendo a Teodoro Sampaio pré-cidade limpa, cheia de cartazes, fliperamas, botecos, chaveiros, lotéricas, lojas de discos, instrumentos e bugigangas, a rua da minha adolescência.

Que São Paulo a conserve sempre assim, tosca e linda.

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Aqui, o também excelente videoclipe:


4.9.13

life is a horizontal fall



nenhuma novidade; e ao mesmo tempo, tudo novo sob o sou.

2.9.13

A vida, ela não tá fácil pra ninguém


[John Wayne as a pink rabbit, 1969]


[Lou Reed as a chicken, 2000]