22.4.14

Homens e Caranguejos


JOSUÉ DE CASTRO



O médico, geógrafo e sociólogo pernambucano Josué de Castro foi pioneiro no combate à fome no Brasil e no mundo. Apresentou proposta de ações de incentivo à agricultura familiar e à criação dos restaurantes populares; foi presidente do Fundo para a Agricultura e Alimentação da ONU e indicado duas vezes ao Prêmio Nobel da Paz.

Seu nome chegou a ser cogitado para Ministério da Agricultura no governo do João Goulart, o que só prova o quanto o Jango era um cara a fim de fazer as coisas certas - no momento errado. Onze dias após o golpe militar, o nome de Josué estava na primeira lista de cassações da ditadura. Tachado de 'notório comunista', seus livros foram proibidos nas universidades, seu nome censurado e proibido na imprensa por décadas.

"A fome é, conforme tantas vezes tenho afirmado, a expressão biológica de males sociológicos."

"Nenhum fator é mais negativo para a situação de abastecimento alimentar do país do que a sua estrutura agrária feudal, com um regime inadequado de propriedade, com relações de trabalho socialmente superadas e com a não utilização da riqueza potencial dos solos. Apresenta-se deste modo a Reforma Agrária como uma necessidade histórica nesta hora de transformação social que atravessamos como um imperativo nacional."

"A paz depende mais do que nunca do equilíbrio econômica do mundo. (...) Os ingredientes das guerras são o ouro e as bombas atômicas. O ouro acumulado às custas do sofrimento e  miséria de dois terços da humanidade. E as bombas, produzidas pela aplicação pervertida da ciência a serviço da destruição e da morte. Os ingredientes da paz são: o pão e o amor."


Josué de Castro, Cidadão do Mundo, de Silvio Tendler, 1994

(*) Galeria de esquizoídolos


21.4.14

A Natureza do Espaço


MILTON SANTOS

"Hoje, com uma pequena aparelhagem informática, eletrônica, com meios limitados, também se faz opinião; também se produzem coisas centrais na reelaboração da História."

Milton Santos, no excelente documentário Encontro com Milton Santos: O mundo global visto do lado de cá, lançado em 2006, filmado em 2001 - Pré-Era Lula, portanto.

Mídia independente, safári urbano, rolezinho de sem-teto no shopping, manifestações, gentrificação, falta de água, cultura colonizadora, globalitarismo. Está tudo aí:



"O Estado é algo cada vez mais indispensável, porque as fontes geradoras de diferença, desigualdade são muito mais fortes do que no passado, Então, para desmanchar essas diferenças, reduzir essas desigualdades, é necessário um Estado que intervenha; um estado socializante, por conseguinte."

Gosto muito desse cara.


(*) Galeria de esquizoídolos

An innocent man in a living hell



That's the story of the Hurricane
But it won't be over till they clear his name
And give him back the time he's done
Put in a prison cell, but one time he could-a been
The champion of the world

R.I.P. Rubin Carter

Fucking Tourist



Fora, haoles.

http://jolipunk.over-blog.com

20.4.14



Feliz páscoa, galere

19.4.14

Não leva jeito pro sarcasmo?
Vamos a-do-rar te ajudar com isso.
http://ow.ly/2CKDJ

Reconhecer ironia, até você vai conseguir:
http://ow.ly/2CKBZ

#sarcasmsociety

17.4.14



Vaya con Dios, Gabriel García Márquez :'-|

(Aqui: http://bit.ly/1netabO - ilustrações de Carybé para Cem Anos de Solidão, via Rodrigo Terra Vargas)

4.4.14

DDA e outras bossas



Psicopatologias ilustradas por Boris Artzybasheff.

27.3.14

Postal de Amor



o mar vai e volta
com um gosto
do licor que ficou
na tua boca
do suor que ficou
na minha boca
vai deixando minha
parda voz, parda voz
parda voz, parda voz
de louca

Como viver sem ironia (carapuças para todos)

"Se a ironia é o éthos de nossa época – e ela de fato é –, então o hipster é o nosso arquétipo do estilo de vida irônico."



"O que significaria vencer o empuxo cultural da ironia? Afastar-se do irônico representa dizer o que se pensa, pensar o que se diz e considerar a seriedade e a declaração direta como possibilidades expressivas, apesar dos riscos inerentes. Significa assumir o cultivo da sinceridade, da humildade e do autoapagamento, rebaixando o frívolo e o kitsch em nossa escala coletiva de valores. E pode incluir também fazer um inventário honesto de si próprio."

Como viver sem ironia - por Christy Wampole

10.3.14

Pretos Gêmeos @ Feira Plana

A Feira Plana que rolou final de semana no MIS foi coisa linda de meu deus: vendemos tudo, comprei montes de artes e zines, conheci pessoas e projetos incríveis, revi montes de amigos queridos, foi demais.

Gratidão eterna à Bia Bittencourt, por essa excelente ideia de evento e especialmente pela energia de correr atrás e fazer acontecer. E obrigada de coração a todos que passaram por lá <3

(Ah, e quem não conseguiu comprar os cartazes e desenhos por motivos de #soldout pode encomendar pelo site: http://www.evauviedo.com.br)


Os rabiscos que viraram clichês de impressão para o livro Mnemomáquina, e que viraram cartazes depois


A aplicação dos clichês do livro de Ronaldo Bressane


Barraquinha dos Pretos Gêmeos na Feira Plana

(*) Pretos Gêmeos é a empresa fictícia de Eva Uviedo e Ronaldo Bressane, unidos a qualquer tempo por ideias, planos, festas, negócios.

7.3.14

O futuro está no passado

Primeiro veio o livro.
Não, não.

Primeiro o Lorenzo, filho do Ronaldo, acordou no Copan e disse que tinha visto um tubarão voador pela janela.

(E eu que achava que essa espécie estivesse extinta desde os anos 80... Mas já há muito tempo perseguia o cardume de peixes voadores por aí.)

Depois surgiu o tubarão. Esse, que abracei, botei no colo, ninei. E as mulheres com cabelos de tentáculos, que também já rondavam há muito esse lado da cidade.

Enquanto isso, o tubarão que sonha, o homem perdido e a mulher-polvo dormiam o sono intranquilo dos personagens não-publicados. Junto com o gorila mutante, o escritor morto de modo misterioso, os escritores que se tornaram imortais, o gordinho nerd e os irmãos que viajam pelo interior do Brasil em busca de um amigo imaginário, e muitos outros.

Assim é o primeiro romance do Ronaldo Bressane, que veio ao mundo sete anos depois do tubarão cruzar os céus do centro de SP. Os tempos se cruzam, e entre passado, presente e futuro, sobrepostos em camadas e bagunçados cuidadosamente, contados por 15 narradores diferentes; quando vamos ver, tudo já aconteceu.

Então, sim, veio o livro:


o primeiro romance de Bressane, Mnemomáquina, editado artesanalmente pela Demônio Negro, com capa em tecido escarlate [como os códices do século XIV], impressão em clichês tipográficos [técnica do século VIII], toda em fonte Garamond [também datada do século XVI], vinhetas gráficas em uma cor e acabamento inteiramente à mão. A tiragem, única e numerada, restringe-se a 40 exemplares, depois acabou. Segundo o autor, "Há livros demais no mundo — e poucos podem ser passados direto do escritor ao leitor, de mão a outra. Como antigamente. Como pode voltar a acontecer no futuro."

E assim os seres fantásticos e imaginários que me assombravam se juntaram aos outros personagens, em forma de vinhetas, para ilustrar os capítulos do livro; e se desdobraram em uma série limitada de posters e cartões:


Daí veio amanhã:
quando enfim tubarões, polvos, seres fantásticos e náufragos em terra firme estarão juntos à venda na banca dos Pretos Gêmeos na Feira Plana (na entrada do MIS, estande 11 - Sáb. (8) e dom. (9): das 12h às 20h. Grátis).

Vem que vai ser massa.

* * *

Perdeu a feira? Chegou e já tinha acabado tudo? Pode encomendar suas artes aqui: 
http://www.evauviedo.com.br/Pretos-Gemeos-Feira-Plana

27.2.14

18.2.14

In the middle of a cloud I call your name



A aniversariante de hoje não só é GÊNIA* como inspirou a que é, pra mim, a mais linda canção de amor de todos os tempos.

Oh, Yoko

17.2.14



sei que assim falando pensas
que esse desespero é moda

27.1.14

Onde a dor não tem razão



São Paulo, aniversário da cidade >> 01 (hum) MANIFESTANTE com potencial destrutivo moderado, portando um estilingue e quatro pacotes de bolinhas de gude sendo ESPANCADO > por 50 fãs do PAULINHO DA VIOLA, incluindo > 1 agressor que dava bordoadas com um par de MULETAS > 4 seguranças ligeiramente incompetentes tentando proteger o desgraçado da turba de cidadãos DE BEM repentinamente REVOLTADOS > sendo observados por uma MULTIDÃO e mais > dezenas de integrantes da guarda municipal que só não estavam em menor número do que > o ENXAME de fotógrafos e videomakers que captava a cena, sem se abalar. "NINGUÉM vai estragar a nossa festa. Se esses caras voltarem aqui, vamos dar PORRADA".




p.s.: pra assistir ouvindo:

25.1.14

a melhor cidade


leia na minha camisa: i love you

sabe na paulista, perto da brigadeiro luis antônio, tem um predinho com tijolos vazados amarelos - não sei explicar bem os tijolos, são de uma época, x. quando você passar por eles vai reconhecer.
eu tinha acho uns sete anos, tinha acabado de chegar no brasil
estávamos meio de favor aqui e ali, não lembro bem onde, mas era nessa área - comprávamos coisas pro café da manhã no jumbo eletro e saíamos pra andar
eu sempre usava umas camisetas brancas do meu pai como vestido
com um cinto vermelho de verniz
e lembro do sol da manhã batendo no rosto, na paulista
(o sol nas bancas de revista)
de olhar pra cima, pensando 'UAU'.
'a melhor cidade, a melhor cidade'
não sei da primeira vez que ouvi essa música;
mas lembro desse momento, de ter sete anos e ter entendido tudo:
do sorvete, da lanchonete, do azul
da paz da cidade, da MELHOR cidade
dos tijolos amarelos e o sol batendo nos carros, a gasolina
e a camisa, e a cidade
a melhor cidade da américa do sul


[publicado originalmente aqui]

16.1.14

hungarians do it better


1938 : Hungarian Folk Dancers (Czardas)

16.11.13



'Petista' militante desde os anos 80, não estou triste hoje pela prisão do José Dirceu e José Genoíno.

Me entristece, e não é de hoje, saber que os meandros do sistema político deste país ainda permitam, aliás tornem quase que padrão, os desvios, a corrupção, o caixa 2 e outras práticas vergonhosas.

Me entristece saber que o governo que, a meu ver, conseguiu conquistas incomparáveis no campo social não conseguiu isso sem sujar as mãos.

Me entristece ver a imprensa dar tanta atenção ao Mensalão, chamando-o de 'maior escândalo da História' e quase NENHUMA aos escândalos de corrupção tucanos, que oneraram os cofres públicos pelo menos dez vezes mais.

Me entristece por exemplo, saber que Paulo Maluf, procurado pela Interpol, inegavelmente tendo enriquecido de forma ilícita, não esteja nem de longe correndo o risco de ser preso.

Me deixa indignada - e preocupada - ver o judiciário usar mal e porcamente o recurso do domínio do fato, de uma maneira que nem o Ives Gandra Martins nem o autor da teoria conseguiram defender, condenando absolutamente sem provas um dos réus. Mesmo que ele seja culpado.

Me deixa triste lembrar as humilhações públicas que sofreu Luiz Gushiken, antes de ser inocentado.

[a lista poderia continuar ad infinitum]

Se de fato os réus do mensalão foram culpados, não me permito ficar triste com sua condenação (dura lex, sed lex); e nem concordar em tentar transformá-los em mártires ou ~presos políticos~ nem nada do gênero. Pode ser perseguição, implicância, até injustiça - mas prisão política não é.

Porém, noves fora, por comparação com outros partidos, outros governos, e por acreditar que as medidas tomadas nas questões primordiais como redução da miséria, taxa de analfabetismo, injustiça social e outras tantas do governo do PT são as mais acertadas - inclusive pelos seus resultados; e mesmo um tanto decepcionada com os parcos avanços em áreas como reforma agrária, ambientalismo, legalização das drogas etc, posso dizer:

Não, até o momento eu não perdi, nem por um minuto, a vontade, o orgulho de ser petista.

[foto: Débora Cruz]

4.11.13

31.10.13

Selvagem


Um homem imagina que é um pássaro. Está de tal maneira convencido de que é um pássaro, que agita os braços como se batesse as asas. E imita com impressionante graça o arrulho da rola selvagem. E faz biquinho. E sobe às árvores e aos beirais. E alimenta-se de milho e de outras sementinhas. E faz a corte a outras rolas. E é morto com um tiro certeiro de caçadeira.






[a tradição dos homens de vestir-se como animais e monstros selvagens desde o neolítico nunca deixou de existir e ainda é muito viva nos dias de hoje. por dois anos, o fotógrafo francês Charles Fréger viajou por 19 países europeus para tentar capturar o espírito do que ele chama de europa tribal, em sua série "wilder mann". o que ele encontrou: uma enorme variedade de rituais pagãos, principalmente relacionados com o solstício de inverno e de renovação da primavera - e muito similares entre si]


+ o fotógrafo tem uma série de fotos de fantasias de carnaval do Brasil:
http://www.charlesfreger.com/works/index.php?UserSerie=Fantasias

5.10.13

Parada do velho novo



Eu estava sobre uma colina e vi o Velho se aproximando, mas ele vinha como se fosse o Novo.

Ele se arrastava em novas muletas, que ninguém antes havia visto, e exalava novos odores de putrefação, que ninguém antes havia cheirado.

A pedra passou rolando como a mais nova invenção, e os gritos dos gorilas batendo no peito deveriam ser as novas composições.

Em toda parte viam-se túmulos abertos vazios, enquanto o Novo movia-se em direção à capital.

E em torno estavam aqueles que instilavam horror e gritavam: 'Aí vem o Novo, tudo é novo, saúdem o Novo, sejam novos como nós!' E quem escutava, ouvia apenas os seus gritos, mas quem olhava, via pessoas que não gritavam.

Assim marchou o Velho, travestido de Novo, mas em cortejo triunfal levava consigo o Novo e o exibia como Velho.

O Novo ia preso em ferros e coberto de trapos; estes permitiam ver o vigor de seus membros.

E o cortejo movia-se na noite, mas o que viram como a luz da aurora era a luz de fogos no céu. E o grito: 'Aí vem o Novo, tudo é novo, saúdem o Novo, sejam novos como nós!' seria ainda audível, não tivesse o trovão das armas sobrepujado tudo.

-- Bertold Brecht (via /filipesaraiva)

28.9.13

Minha filha falou que queria falar de um assunto polêmico com potencial pra estragar o dia, eu "QUÊ, VAI DEFENDER ALTERNÂNCIA DE PODER?"

Era: viajar pra casa da vó nas férias (2014 vai ser um longo ano).

20.9.13



CONDE CHIQUINHO SCARPA



Cavalheiro da mais fina estirpe inventada, no fundo não é mais que um conde papalino - honraria decorativa e, segundo alguns, não-transmissível, conferida pela Igreja Católica ao seu pai, em retribuição a donativos; porém ostenta seu título e herança com mais garbo e galhardia que qualquer membro legítimo da família Real luso-brasileira. Em uma deliciosa combinação de luxo e riqueza com sincera cafonice, exibe sua vida no Facebook como todos nós, ora mostrando 'seu melhor', em caricatos trajes brancos e chapéu panamá durante viagem pelo Mediterrâneo, ora revelando puerilmente intimidades como seu quarto de dormir. Nunca nós, os mais de 100 mil seguidores do seu perfil, estivemos tão próximos da nobreza antes.



Em Scarpa, até a afetação é genuína. Cuecas com monogramas, suspensórios, roupas sob medida, lenços no bolso e abotoaduras, seus trajes e maneiras são tão típicos do que nós, plebeus, entendemos por um conde, que parecem uma caricatura. Chiquinho, não sendo conde, imita um conde à perfeição - tanta, que parece nem ser verdade (e realmente não é). O que pode ser mais autêntico do que isso?

Francisco não precisaria trabalhar; seu pai, também Francisco, falecido recentemente aos 103 anos, era rico suficiente para poupar seus descendentes dos dissabores da vida proletária por várias gerações. Mas trabalha, administrando empresas da família e como instrutor de aikidô - mais uma de suas excentricidades. No entanto, último dos Scarpas, sua verdadeira função social é ser playboy - ou como ele prefere, bon vivant; Chiquinho mereceria ser tombado como patrimônio cultural intangível de uma high society em extinção. Seus romances memoráveis, suas aventuras em Saint Tropez, entrevistas bombásticas, casamentos e divórcios midiáticos, misteriosos problemas de saúde e financeiros, quedas espetaculares e voltas por cima em rodopios morais sem derramar um pingo da taça de espumante nos transformam em espectadores privilegiados de uma adorável e legítima comédia de costumes.

Sua vocação para o humor e a polêmica  não é de hoje: em 1991 foi alvo de discursos indignados na Câmara dos Deputados por ter declarado, em entrevista para a Interview, ser dono de uma "criação de anões", que alugaria para trabalhar como garçons. Obviamente era mentira, mas o Conde precisou se explicar. Assim como precisou pedir desculpas ao Rainier III de Mônaco por ter insinuado um caso de amor com a princesa Caroline - outra de suas piadas incompreendidas.

Da vida nada se leva
Esta manhã o Conde colocou mais uma cereja em cima do bolo de sua incomum biografia. Depois de uma semana em que virou novamente assunto na mídia, nas redes e das conversas de bar ao anunciar uma excentricidade sem precedentes - enterrar no jardim um carro de sua coleção, avaliado em R$ 1,5 milhão, a exemplo dos faraós - Chiquinho revelou de maneira teatral, para dezenas de veículos de imprensa, entre jornais, revistas e emissoras de TV: era tudo uma farsa por uma boa causa: atrair a atenção para uma campanha de doação de órgãos.

“Eu fui julgado por querer enterrar uma Bentley, mas a verdade é que a grande maioria das pessoas enterra coisas muito mais valiosas que meu carro. Elas enterram corações, rins, fígados, pulmões, olhos. Isso sim que é um absurdo. Com tanta gente esperando por um transplante, você ser enterrado com seus órgãos saudáveis que poderiam salvar a vida de várias pessoas, é o mais desperdício do mundo. O meu Bentley não vale nada perto disso. Nenhuma riqueza, por maior que seja, é mais valiosa que um único órgão, porque nada é mais valioso do que uma vida", anunciou Scarpa.



Sim; nada é mais valioso do que uma vida. E uma vida bem vivida, melhor ainda. Só gente muito mal-humorada e de visão limitada pra não apreciar todas as reviravoltas da saga do Conde Scarpa em nome de uma visão reducionista da luta de classes.

E se a vida do Conde, como a de todos nós, não se mede em valores materiais e sim em boas histórias pra contar, embora já tendo recebido duas extrema-unções, Scarpa segue ainda construindo, de anedota em anedota, seu verdadeiro legado para o mundo - mesmo não realizando seu maior sonho: "Quero ter filhos. Se eu não tiver filhos, a família Scarpa morre comigo. Mas quer saber? Se terminar comigo está bem terminado."

E quem há de discordar?

* * *
Leia mais: perfil do Conde, por Mario Mendes (no fim da reportagem); e mais detalhes das travessuras do enfant terrible Chiquinho, por Cristina Ramalho para a Vogue RG

(*) Galeria de esquizoídolos

18.9.13

Dentro da baleia a vida é tão mais fácil



A baleia é sua casa, sua cidade,
Dentro dela guarda suas gravatas, seus ternos de linho.

Dentro da baleia a vida é tão mais fácil,
Nada incomoda o silêncio e a paz de Jonas.

Quando o tempo é mau, a tempestade fica de fora,
A baleia é mais segura que um grande navio.

Da série Coisas que amo: "Mestre jonas" interpretado pelos Mulheres negras no plano-sequência de abertura do filme Durval Discos descendo a Teodoro Sampaio pré-cidade limpa, cheia de cartazes, fliperamas, botecos, chaveiros, lotéricas, lojas de discos, instrumentos e bugigangas, a rua da minha adolescência.

Que São Paulo a conserve sempre assim, tosca e linda.

* * *

Aqui, o também excelente videoclipe:


4.9.13

life is a horizontal fall



nenhuma novidade; e ao mesmo tempo, tudo novo sob o sou.

2.9.13

A vida, ela não tá fácil pra ninguém


[John Wayne as a pink rabbit, 1969]


[Lou Reed as a chicken, 2000]

29.8.13

São Paulo sem carro



A segunda edição do guia Como Viver em SP sem Carro vem com uma pesquisa exclusiva, novos personagens, dicas de passeios e de serviços para quem quer deixar o carro em casa. A pesquisa é bem interessante e revela uns dados surpreendentes. Um deles comprova algo que dá pra sentir facilmente: 38% dos paulistanos usam o carro apenas nos fins de semana, como eu. Dá pra entender porque sábado é dia de pegar congestionamento até quando se vai até ali comprar pregos, roupas, o jantar? É meus amigos, não adianta achar que vai ser relaxante aquele passeio até o Ibirapuera, se você ficar preso no trânsito da Av. Brasil e depois passar duas horas procurando vaga. Precisamos pensar em alternativas, isso é fato.

E se o paulistano (em números relativos e não absolutos) está andando menos de carro, como ele está chegando ao seu destino? Bem, quase 80% dizem que estão indo a pé. E provavelmente chegando mais rápido. Por volta de 70% estão usando variações de ônibus, metrô e trem. Uns 15%, nos qual me incluo, trocaram o carro por outro carro, compartilhado, e estão usando táxi. E um pouco menos de 10% estão usando bicicletas, provando que a combinação trânsito agressivo baseado em veículos motorizados + ladeiras íngremes (ah, o adorável relevo do planalto paulista) são ainda um obstáculo para nos tornarmos uma Holanda tropical. Haverá solução? Autor e personagens do livro apostam que sim; o tempo dirá.

O livro foi idealizado pelo empresário Alexandre Lafer Frankel e escrito pelo jornalista Leão Serva. As fotografias são da Roberta Dabdab. E as ilustrações, claro, são minhas :)

O lançamento é hoje na Livraria da Vila da Al. Lorena, e tem mais aqui: 

18.8.13

Ancestralidade, atavismo e outras bossas

em 18 de agosto de 1227, falecia o imperador Gêngis Khan; em seus 72 anos de vida, o líder mongol amealhou o maior império em extensão que um único homem já conquistou, da costa do oceano pacífico ao mar cáspio. fora isso, uma pesquisa realizada por geneticistas da universidade de oxford afirma que 0,5% da população masculina do mundo possui cromossomos Y característicos dos mandatários mongóis. e estes carregam uma assinatura genética que descende de um único cromossomo fundador - suspeita-se que ele seja de Gêngis Khan.

Fonte: aventuras na história

19.7.13

Aquella noche eterna


Take me out tonight
Because I want to see people
And I want to see lights
Driving in your car

13.7.13

12.7.13

how long is highway to hell


O Google Street View encontrou os portões do inferno: http://bit.ly/18er59v

(clique e dê um passinho à frente)

4.7.13

cada cabeça é um mundo


World map in a Fool’s Head, 1590

* * *

Tudo o que você precisa saber sobre o gigante, por Ian Uviedo Fini:

"Bom, última terça feira eu acordei com a revolução acontecendo, nem liguei. 'Até que isso é bom, irá ocupar um monte de gente' foi o que pensei. Lá pras 14 h começaram a gritar e provocar moradores ou motoristas. Quando eu voltava do trabalho, o transito tava horrível, eu precisava saber por quê.

Perguntei para um motoboy ao lado do meu carro:
'o que está acontecendo?'

Ele me respondeu:
'veja você mesmo.'

Nesse momento eu vi se erguer um homem de pelo menos 75 m de altura; fiquei muito assustado, nunca tinha visto um gigante de verdade antes. O detalhe engraçado é que ele tinha uma cabeça de cão, igual à minha. Quando cheguei em casa liguei minha TV, os noticiários falavam desesperadamente deste gigante, é óbvio, não se pode relaxar com um gigante à solta pelo mundo." 



24.6.13

a rua e eu






Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por todos vós. Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povoados, não porque soframos, com a dor e os desprazeres, a lei e a polícia, mas porque nos une, nivela e agremia o amor da rua. É este mesmo o sentimento imperturbável e indissolúvel, o único que, como a própria vida, resiste às idades e às épocas. Tudo se transforma, tudo varia – o amor, o ódio, o egoísmo. Hoje é mais amargo o riso, mais dolorosa a ironia. Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste e fica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua.

João do Rio, em 'A alma encantadora das ruas'
fotos Daido Moriyama

23.6.13

dois


se todos na terra reconhecerem a beleza como bela
dessa forma se pressupõe a feiura.
se todos na terra reconhecerem o bem como o bem,
deste modo se pressupõe o mal.

a existência e a inexistência geram-se uma pela outra
o difícil e o fácil completam-se um ao outro
o longo e o curto estabelecem-se um pelo outro
o alto e o baixo comparam-se um pelo outro
o som e o tom são juntos um com o outro
o antes e o depois seguem-se um ao outro

portanto
o homem sábio realiza a obra pela não-ação
e pratica o ensinamento sem dizer nada

os dez mil seres agem, mas não para se realizar
iniciam a realização mas não a possuem
concluem a obra sem se apegar
e justamente por realizarem sem apego
não passam.


- tao te king, lao tzu

29.5.13

Subterranean Homesick Blues

Bebê é resgatado de tubulação de esgoto na China





Eu vi uma linda cidade cujo nome esqueci
onde anjos surdos percorrem as madrugadas tingindo seus olhos com
lágrimas invulneráveis
onde crianças católicas oferecem limões para pequenos paquidermes
que saem escondidos das tocas
onde adolescentes maravilhosos fecham seus cérebros para os telhados
estéreis e incendeiam internatos
onde manifestos niilistas distribuindo pensamentos furiosos puxam
a descarga sobre o mundo
onde um anjo de fogo ilumina os cemitérios em festa e a noite caminha
no seu hálito
onde o sono de verão me tomou por louco e decapitei o Outono de sua
última janela
onde o nosso desprezo fez nascer uma lua inesperada no horizonte
branco
onde um espaço de mãos vermelhas ilumina aquela fotografia de peixe
escurecendo a página
onde borboletas de zinco devoram as góticas hemorróidas das
beatas
onde os mortos se fixam na noite e uivam por um punhado de fracas
penas
onde a cabeça é uma bola digerindo os aquários desordenados da
imaginação

Roberto Piva, Paranóia (1963)

* * *
nas fotos: bebê é resgatado de tubulação de esgoto na China
(nascer é quase sempre um parto)