Há um dia
11.7.08
as coisas todas, explicadas
, de jeito que a Board of Directors possa entender.
[Projeto apresentado na primeira edição do Pecha Kucha Night-SP, como parte do Simpósio Emoção Art.ficial 4.0 – Emergência! no Itau Cultural.]
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nóis por aí
19.6.08
JOHNNY, from Massachusetts

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esquizoídolos
3.6.08
13.5.08
Like a drunk in a midnight choir


(pássaro repousa sobre fio de alta-tensão na Argentina;
ao fundo, céu escurecido pelas cinzas do vulcão)
26.4.08
há uma sutil diferença entre vivos e mortos

Os mortos não vivem mais. Vivos não descansam em paz. Mortos não saem dali. Ninguém sai vivo daqui. Vivos não sabem viver. Mortos souberam morrer. Há vivos mortos. Há mortos vivos. Mortos não mais importam. Vivos não mais se importam. Vivos são quentes; mortos são frios. Vivos estão cheios. Mortos são vazios. Vivos vêm e vão, ouvem, sabem e vêem, ou não; pensam e fazem, com ou sem razão. Vivos erram e sentem muito. Mortos não erram, e não sentem. Vivos são, de verdade. Mortos, não mentem.
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esquizotextos
24.4.08
o destino me acomete
o rio que passa aqui embaixo
sempre correu para o mesmo lado;
e eu posso ir e posso voltar.
é o rio tão livre quanto eu,
ou serei eu preso no fluxo contínuo
como é o rio? *
ontem a terra tremeu e eu, embaixo dela, não senti nada. só tive uma vontade-ziiiiiinha de chorar duas vezes no final de um livro, quando sombra do menino envolve a dor que levaria para sempre. muitas vezes penso: o que foi que eu disse de errado? qual mancha eu deixei agora? então tento pensar nas coisas como se já fossem memórias, como um presente imperfeito, um futuro do pretérito.
mas puxa, todos tão bonitos e eu com esse medo. do futuro, do passado.
o que será que eu estava fazendo quando a terra tremeu? só soube mais tarde, como de costume: nunca estou presente nos grandes momentos da história. sempre distraída com algo, como naquela manhã sonolenta da queda das torres; como naqueles dias ótimos e hedonistas no reveillon do tsunami; e quando tudo foi embora naquele ano das águas que culminou com o rio mississipi levando em seu fluxo caixões, casas, entes queridos, anjos.
as coisas me chegam depois, já como histórias, «a menina morta», «o padre que se perdeu no mar numa noite de lua cheia preso a mil balões coloridos», «os ossos do polvo e o rei-peixe» e «como foi que eu cheguei aqui».
ou então chegam antes, como previsões, presságios, estúpidos prenúncios de apocalipse.
pois bem. entrando no inferno astral, este ano decidi jogar fora de vez qualquer bússola. afinal, não estarei, indo contra as previsões, apenas favorecendo as circunstâncias, como na lenda sufi? não saberei; nem dos perigos dos rios, nem dos fluxos, nem da segurança das pontes. pois, se for rio eu - peixe - nado, se for céu azul above us, te vejo, e se a terra tremer, eu danço.
* * *
("Obstinação em suas veias", Só o Abimonismo Salva, Abimonistas)
15.4.08
4:20 e uma pitada de civilização

«Ao terminar uma refeição, a pessoa deixa o garfo e a faca unidos em paralelo, dentro do prato, com os cabos apoiados na borda do lado direito, aproximadamente na direção 4:20 horas. A etiqueta recomenda que o lado cortante da faca esteja voltado para o interior do prato e o garfo, ao modo inglês, com os dentes para cima (Fig. 4), e ao modo francês, para baixo.
É considerado reprovável deixar os talheres inclinados, com as pontas apoiadas nas bordas, do lado de fora e de cada lado do prato, como as asas abertas de uma ave.»
«nesse site vc tbm encontra:
Filosofia Moderna, Filosofia Contemporânea, Temas de Filosofia,
Psicologia e Educação, Boas Maneiras e Etiqueta, Contos,
Restauro, Genealogia, Geologia, Livros»
o mundo ficou mais fácil?
(não responda nos comments inexistentes, esta - e todas as outras - são perguntas retóricas)
8.4.08
os ossos do polvo

3 coreanos comendo polvo vivo
www.youtube.com/watch?v=rSoNa2-Tqh8
www.youtube.com/watch?v=5T4c4g3iXv0
www.youtube.com/watch?v=9b_aZUOnvRQ
e um polvo sendo foda
www.youtube.com/watch?v=T8cf7tPoN5o
31.3.08
Hippies, punks, rajneeshs
Dió en la TV Azteca, y es verdad pero parece ficción, por isso la notícia vai em portuñol: uno bando de PUNKS se reuniram en Ciudad de México para atacar a los saco-de-pancadas EMOS, "por copiaren nuestros estilos", como justificou um manifestante. Los emos se defendieran com garrafas y cintos. Estes jovens insurgentes aprontaram as maiores confusões durante cinco horas hasta llegar las fuerzas policiales: 150 policías para separar punks, darks y emos. Pero parece que a briga acabou mesmo com la llegada... de um grupo de hare krishnas. No puede ser! Vean con sus ojos:
28.3.08
Febre da Névoa Literária

Da literatura médica: "Há certos tipos de ares, carregados de emoção, nostalgia e sonho, que em si mesmo trazem e até por si mesmo assim, que ao formarem névoas, cinemas, pares, causam. literaturismo, poesilergia, psicoficção" - Dr. Aires
como as gripes, é só esperar que passa. até lá, recomenda-se um lenço.
27.3.08
negóss de família

- ah, aquela mulher, o pessoal foi na casa dela, vixe, muito estranha.
- é? estranha tipo como?
- ah... não tinha filho. disse que nem queria ter, que não gostava.
- nossa, hein.
- pois é. eu, se tiver dinheiro vou querer ter uns quatro, cinco.
- vige, hahaha, vai estragar a tua Alinezinha.
- haha, estraga nada méu. minha vô teve sabe quantos? DOZE.
- doze, vixe.
- falou que foi indo, foi indo, daí foi isso.
- nossa, é muita gente, não?
- e uma mulher lá da cidade da minha mãe que teve VINTE E DOIS, acredita?
- nossa, foi o quê, um por ano?
- pois é. e alimentar tudo isso?
- ôxe. haja farinha!
#diálogosnobusão
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esquizodiálogos
26.3.08
de família e outros negócios
- mãe...
- oi.
- eu queria, ter um irmão da minha idade.
- ah é?
- é, e a aninha também acharia bom ter outro irmão, da minha idade, assim eu não enchia tanto o saco dela.
- puxa, imagina dois de você, ia dar mais trabalho, ué.
- é, ia. a gente ia adotar um ornitorrinco.
- um ornitorrinco?
- é, mas tinha que ser um ornitorrinco espião.
- hmm.
- oi.
- eu queria, ter um irmão da minha idade.
- ah é?
- é, e a aninha também acharia bom ter outro irmão, da minha idade, assim eu não enchia tanto o saco dela.
- puxa, imagina dois de você, ia dar mais trabalho, ué.
- é, ia. a gente ia adotar um ornitorrinco.
- um ornitorrinco?
- é, mas tinha que ser um ornitorrinco espião.
- hmm.
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esquizodiálogos
4.3.08
triste e bonito, como sempre é
People tell me it's a sin
To know and feel too much within
I still believe she was my twin
But I lost the ring
She was born in spring
But I was born too late
Blame it on a simple twist of fate.
Blood on the tracks, 1975
To know and feel too much within
I still believe she was my twin
But I lost the ring
She was born in spring
But I was born too late
Blame it on a simple twist of fate.
Blood on the tracks, 1975
27.2.08
sem destino, sem dogma e sem fé
"O mundo não é um sistema ordenado, não é um cosmos, é um aspecto passageiro de um processo mutável e múltiplo cujos cambiantes não se conseguem prever, cujo objetivo nos é incompreensível. As leis que Zeus introduz não são eternas e insondáveis leis da natureza, mas o resultado de um equilíbrio entre tendências em contraste; a todo momento o caos pode irromper sobre nós. Com isto, o racionalismo científico não é excluído uma vez por todas da nossa consideração. É uma das fábulas que contamos para suportar temporariamente o absurdo que nos rodeia."
"O nonsense e a fé, por muito estranha que possa parecer a ligação, são duas supremas afirmações desta verdade: não é possível arrancar a alma das coisas com um silogismo; aquele que estudando apenas o aspecto lógico das coisas, chegou a conclusão de que 'a fé é nonsense' não sabe como são verdadeiras suas palavras; poderá replicar-se que 'o nonsense é fé'."
-- Gillo Dorfles, em Elogio da desarmonia
ouve aí: http://evauviedo.tumblr.com/post/27449969
"O nonsense e a fé, por muito estranha que possa parecer a ligação, são duas supremas afirmações desta verdade: não é possível arrancar a alma das coisas com um silogismo; aquele que estudando apenas o aspecto lógico das coisas, chegou a conclusão de que 'a fé é nonsense' não sabe como são verdadeiras suas palavras; poderá replicar-se que 'o nonsense é fé'."
-- Gillo Dorfles, em Elogio da desarmonia
ouve aí: http://evauviedo.tumblr.com/post/27449969
2.1.08
23.12.07
taxi stories I
era noite de halloween, por isso o motorista perguntou se eu acreditava em bruxas, bruxaria, magia 'essas coisas';
falei que acreditava ué,
mas que não fazia a menor diferença
'assim como acredito em bússolas
mas não uso pra andar por são paulo,
prefiro chamar um táxi, hahahaha'
ele disse 'é, mas todo mundo tem que acreditar em algo'
ele tem toda a razão, veja
eu, por exemplo acredito em taxistas.
falei que acreditava ué,
mas que não fazia a menor diferença
'assim como acredito em bússolas
mas não uso pra andar por são paulo,
prefiro chamar um táxi, hahahaha'
ele disse 'é, mas todo mundo tem que acreditar em algo'
ele tem toda a razão, veja
eu, por exemplo acredito em taxistas.
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esquizotáxis
28.11.07
Sabe aqueles dias em que horas dizem nada? Você trabalhou, caiu na balada, bebeu, comeu sorvete, viu seu seriado favorito, mas ainda está com aquela sensação de que falta alguma coisa... Sabe o que está faltando na sua vida? NaDa™.
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12.10.07
29.9.07
AS FLORES DO MAL
Romero Britto não vê sentido em expor seus pesadelos. Seus temas favoritos são gatinhos, peixes voadores pulando, flores desabrochando, casais dançando. A declaração de intenções está estampada na parede da Galeria Romero Britto, situada na mais grã-fina das ruas paulistanas, a Oscar Freire, nos Jardins. O lugar é colorido por natureza, desde o quadrinho que diferencia o banheiro feminino do masculino até a mesinha em forma de flor onde apoio meu prosseco - e que custa a bagatela de onze mil e quinhentos reais. Estranhamente (ou não), situa-se nesse cenário a exposição "As flores do Mal", do rock-star e às vezes artista plástico Marilyn Manson.
A vernissage, aberta pra imprensa e (poucos) convidados e regada a uísque do bom mais a velha e boa tríade esfiha-quibe-risólis, foi tumultuada pela presença maquiada do astro, acompanhado de sua namorada, a atriz teen Rachel Evan Wood, e a previsível bateção de cabeça entre veículos altamente qualificados e tradicionais do circuito das artes, a saber: Amaury Jr e TV Fama, todos atrás da tão sonhada exclusividade. Mas pra quê? "Ai, vamos perguntar se ele arrancou a costela pra chupar o próprio p**?" planeja a irônica e animadíssima apresentadora minimamente trajada de estampa de onça enquanto ensaia caras e bocas pra sua atuação. Ah, por Deus. Atrás de um quilo de pó compacto também tem um cérebro, Mrs. oncinha. Mr. Manson é menos simpático do que deveria, mas mais do que deveríamos esperar. Assim como a carreira de artista plástico é alavancada pela de artista pop, também é soterrada por ela. Poucas perguntas sobre arte, muito preconceito e pagação.
O artista Brian Hugh Warner, a.k.a. Marilyn Manson, faz questão de expor seus pesadelos, em forma de auto retratos, projeções de sua prória velhice, morte, doença e vício. E exibe seu lado mais sombrio, além da música, em tintas leves mas de tons fortes, e figuras às vezes mórbidas, mas sempre de olhar penetrante, perturbador. Ao contrário de Britto, as cores de Manson transmitem toda sua inquietação interior. Pra quem quiser conhecer esse outro lado do artista, as telas da exposição “Fleurs Du Mal” ficarão à mostra até dia 19 de outubro. Já homem, o mito, esse segue seu rumo noturno. Sem caipirinha, brasileiros; sem samba, sem praia, sem sol; sem ao mesmo borrar o batom. Gente fina, entende?
Veja mais: http://www.marilynmanson.com/art/
3.9.07
assim o amor
Espantado meu olhar com teus cabelos
Espantado meu olhar com teus cavalos
E grandes praias fluidas avenidas
Tardes que oscilam demoradas
E um confuso rumor de obscuras vidas
E o tempo sentado no limiar dos campos
Com seu fuso sua faca e seus novelos
Em vão busquei eterna luz precisa
[Sophia de Mello Breyner Andresen]
Espantado meu olhar com teus cavalos
E grandes praias fluidas avenidas
Tardes que oscilam demoradas
E um confuso rumor de obscuras vidas
E o tempo sentado no limiar dos campos
Com seu fuso sua faca e seus novelos
Em vão busquei eterna luz precisa
[Sophia de Mello Breyner Andresen]
31.5.07
3.5.07
Dance me to the end of love

sim, podemos concordar em deixar pra lá a noite escura - até porque, é lua cheia e desmedida, sabe lá. chega de 'houve um tempo' e rabos de lagartixa. afinal, é preciso blá blá blá, todos sabemos e a ninguém é dado alegar: sem eclipses, sem elipses, sem prego ou ponto final. mesmo os velhos parênteses foram quase abandonados, vazios de sentido e sussurros sem vazão. me dedica alguma coisa? vivia a suspirar. um pesto, um post it, um estacionamento, uma canção, um couvert. sabe o quanto, não-me-importo? não sabe não. é mentira. vamos combinar assim então: chamarei outono de setembro, junho de céu, outubro de chão. e vou dizer os teus nomes: coisas, vertigem, vitrola, cumes, ventos, vales, cais. nem sim nem não, nem se ou quando. ontem. sempre. hoje. amanhã.
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30.4.07
E POR FALAR EM COISA ALGUMA

digamos que não tem nada sólido aqui (só a vontade de contar da luz nas cortinas beges de renda e da menina com caxumba no fim da rua, nada mais). também você deve pensar, de vez em quando 'mas afinal' - muito intrigado - 'onde foram parar esses sapatos?' ou como eu, consolar-se 'vai ver que, nem eram meus'. esse é um ponto. outro é dizer que pontos e vírgulas nunca bastam; e embora pontos-e-vírgula me agradem, algumas metáforas me escapam. ou, se ainda, alguém tivesse acreditado, em uma dessas tardes estrangeiras de um desbotado mas ainda azul, seria então já, uma outra história? e se sim, qual seria a minha? se tivesse melhor inventado rua deleitada, asfalto nu, debruçar de janelas, mesas ou cadeiras, coisas de passar e ficar. não sei. das coisas o riso aberto, falta de jeito mesmo, nunca aprendi. tenho inveja: de bons dentes e varandas; de sentimentos rasos e pensamentos profundos. tenho amor: por martelo e chave de fenda, porque são ativos; e de pregos e parafusos, seus complementos tímidos e permanentes: coisas que se fixam nas paredes, não por serem tanto em si, mas por suportarem toda a beleza do mundo.
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29.4.07
Eu era feliz e ninguém estava morto

todo dia alguma coisa já faz anos; a não ser as que nasceram outro dia - muitas delas, nem bem natas, ficaram afogadas naquele pântano de preguiça e desilusão. vamos deixar tudo assim, como a areia da gata e o vaso do manjericão morto. vamos plantar outra coisa nesse espaço.
todo dia aquele dia faz seu próprio aniversário. e todo dia se comemora um nome santo - mas nunca o meu, que é pagão. todo maldito santo dia, dias vãos se repetindo; dias se auto-entrelaçando, em infinitas relações que se roçam ano a ano.
também hoje minha tristeza faz mais um aniversário.
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3.4.07
Así pues, éste es mi ego: indica.
"Plan de mi ninguna cosa, ahora. Estoy aquí. no somos, no somos nosotros aquí?"
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2.4.07
DUAS OU TRÊS COISAS QUE ME CONTOU BERNARDO

definido como qualquer coisa entre os cavalos imóveis e o foco da não-atenção joaquim lia e relia pessoa em péssima tradução. bem, o português de antanho não lhe negava café no entanto, e eu dizia: 'meu primeiro e grande amor!', oh, u la la, isso muda tudo, não é? pra mim sim, todo dia, e o dia todo também. pessoalmente não me oponho à grafia xadreza nem ao funk junto ao jazz. mas à luz acesa lá fora e aos ecumenismos vistos de baixo como uma velha de saia, sim, sim. 'também não adianta ter asas presas às costas por único fino fio', pensou (ora pois!) velho joaquim; alma, cebolas e brasas: posso dizer que chega, escadas curvas e silêncio, perdeu-se em caminho subtil. mas não quero ser perfil num livro, albertío - numa revista talvez. quero das coisas-já o sumo, e a mancha futura da xícara naquele azul do papel. saber que o mundo esta torto, clarita, e quem está certa sou eu.
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14.3.07
12.3.07
E TUDO COMEÇA E TERMINA, ASSIM

então eu diria, muito séria: "...cara, eu te amava TANTO". e lembrava uma música triste, em mim. daí !BAH, ririamos muito, muito, mas MUITO, até doer a barriga, até sairem lágrimas; e quando conseguisse falar de novo, com os pés pra dentro e uma voz fina diria "(...) quá quá quá quá quá, mas que grande !COISA!, que bela !MERDA!, quem tu pensa que é com essa bobagem de AMOR, vais me dizer 'ah, é, e eu tenho uma lata de coca-cola guardada, desde oitentaeseis, lembra, que o brasil ganhou a copa?'" e tu "ah vá, NUNCA me disseram que as fotos ficavam roxas, SEMPRE pensei que as coisas só AMARELASSEM". e eu "ah que MENTIRA A TUA, ¿vai dizer que você não sabe que no fim tudo fica preto & branco, como um contrato, ou retrato, trapo, prato, sapato e metáfora TERMINAL?" ah é, e como um gato! aparece, desaparece. on focus. normal. normal. normal. normal. um e zero e zero e um e zero e zero e um e um. é tão simples e bonito. tão único e tão comum. tão TÃO, contudo tão QUASE, tão que FOSSE, porra, então.
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11.3.07
8.3.07
28.2.07
21.2.07
9.2.07
SAMBANDO NA LAMA, AMIGO E TUDO BEM

e ainda por cima este calor. daí os metereologistas dizem que ontem choveu 63% do previsto pro mês. imagine você, fazer uma porcentagem encima de algo que NÃO aconteceu? tipo, em 24 horas choveu 100% da chuva que tinha que cair nesse dia; mas alguem errou a previsão e diz: a chuva é que se precipitou, e já choveu-se toda, ai. é, ela tá com pressa, e a gente não, né. tudo se move va-ga-ro-sa-men-te. e assim vamos, meditando na ponte como o sábio, ou no ônibus mesmo, nesse trânsito que definitivamente não anda. e fazer o quê? não sei vocês. eu penso que o melhor é andar-se a pé. uh la la oh yeah.
6.2.07
SAMBANDO NA LAMA AMIGO, ATÉ AMANHÃ

nada é tão INSUPORTÁVEL para o homem quanto estar em um estado de pleno repouso, sem paixões, sem ocupações, sem diversão, sem esforço. ele sente então sua NULIDADE, sua dependência, sua impotência, seu VAZIO. e de imediato brotarão das profundezas de sua alma o TÉDIO, o desânimo, a tristeza, o sofrimento, o RESSENTIMENTO, o DESESPERO.
em Thoughts, Blaise Pascal
5.2.07
GENTE PHINA É ÔTRA COISA
reflexão do dia, ops, da noite:
VIP que é VIP não sabe o que é ser VIP
- ai, amiga, ainda bem que entrei de graça
- nossa, por que, tem gente que paga?
VIP que é VIP não sabe o que é ser VIP
- ai, amiga, ainda bem que entrei de graça
- nossa, por que, tem gente que paga?
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esquizodiálogos
31.1.07
We never did too much talkin' anyway

E assim o murmúrio das aves, o sussurro dos arvoredos e o fundo monótono e esquecido do mar eterno punham à nossa vida abandonada uma auréola de não a conhecermos. Dormimos ali acordados dias, contentes de não ser nada, de não ter desejos nem esperanças, de nos termos esquecido da cor dos amores e do sabor dos ódios. Julgávamo-nos imortais.(...) Nenhum de nós tem nome ou existência plausível. Se pudéssemos ser ruidosos ao ponto de nos imaginarmos rindo riríamos sem dúvida de nos julgarmos vivos. (...)
Desenganemo-nos da esperança porque trai, do amor porque cansa, da vida porque farta e não sacia, e até da morte porque traz mais do que se quer e menos do que se espera. Desenganemo-nos, ó Velada, do nosso próprio tédio, porque se envelhece de si próprio e não ousa ser toda a angústia que é. Não choremos, não odiemos, não desejemos. Cubramos, ó Silenciosa, com um lençol de linho fino o perfil hirto e morto da nossa Imperfeição.
Livro do Desassossego, Fernando Pessoa
26.1.07
E NO ENTANTO NADA IGUAL

leia na minha camisa: i love you
e é sempre outra cidade
vou escrever uma frase pra ler ao acordar
pensei em 'vivemos na melhor cidade'...
uma coisa bem beeeeeeeeeeeibe
assim você me comove
é tão bonita essa música
acho que foi a primeira música que eu achei muito bonita na vida
e por causa desse verso, da melhor cidade da américa do sul
eu me perguntava: mas gente! que lugar é esse
? que lindo!
Eva_it's alright, ma, it's life, and life only:
eu te contei dessa musica já?
nunca
conta
sabe na paulista, perto da brigadeiro luis antonio, tem um predinho com tijolos vazados amarelos - não sei explicar bem os tijolos, são de uma época, x. quando você passar por eles vai reconhecer.
eu tinha acho uns sete anos, tinha acabado de chegar no brasil
estávamos meio de favor aqui e ali, não lembro bem onde, mas era nessa área - comprávamos coisas pro café da manhã no jumbo eletro e saíamos pra andar
eu sempre usava umas camisetas brancas do meu pai como vestido
com um cinto vermelho de verniz
e lembro do sol da manhã batendo no rosto, na paulista
(o sol nas bancas de revista)
de olhar pra cima, pensando 'UAU'.
'a melhor cidade, a melhor cidade'
não sei da primeira vez que ouvi;
mas lembro desse momento, de ter sete anos e ter entendido tudo:
do sorvete, da lanchonete, do azul
da paz da cidade, da MELHOR cidade
dos tijolos amarelos e o sol batendo nos carros, a gasolina
e a camisa, e a cidade
a melhor cidade da américa do sul*
***VOCÊ PRECISA
em um dia TIPICAMENTE PAULISTANO; que começou ensolarado, choveu, estiou; em um bairro em que foram ocupados absolutamente TODOS os lugares pra estacionar; em um parque de importância histórica às margens de um RIO MORTO; em meio a CINQÜENTA MIL PESSOAS que ilustrariam até pra um extraterrestre a verdadeira acepção da palavra DIVERSIDADE: freaks, modernos, góticos, goas, hippies saídos de alguma câmera criogênica setentista ('me acordem quando os mutantes se reunirem de novo'); de dreads, chapinha, trancinhas, chapéus, moicanos, gorros, bandanas, turbantes, bonés; cantando, dançando, andando de skate, namorando, jogando bola, com os filhos, correndo, fazendo malabarismo, subindo nas árvores, vendendo artesanato, fumando, a maioria ENCHENDO A CARA do vinho mais BARATO que eu já vi, MIJANDO no lugar errado, pessoas comuns na área vip, VIPs enfrentando a fila da entrada por horas (ah, as tradicionais FILAS paulistanas); e depois de assistir o doido Tom Zé loar a CAGANEIRA de Dom Pedro I, incitar a turba a protestar contra a globalização, contra o prefeito, contra o BUSH e contra a globo, que obviamente registrava tudo, só posso chamar de EPIFANIA o que eu senti ao ouvir os versos acima citados serem ENTOADOS, pelos sensacionalíssimos renascidos MUTANTES e por milhares de paulistanos - de nascença, por destino ou opção - bêbados, desafinados, emocionados, todos juntos somos nós, REUNIDOS, uma pessoa só, por ELES que sim, seriam e sempre serão: a tua MAIS PERFEITA tradução.
baby, baby, eu sei que é assim.
P.S.: Rita quem?

It's very nice pra chuchu
25.1.07

- demora anos pra ver a vida passar num segundo?
- não sei, ian
- é tipo uma doença, isso, aninha?
- nãaao ian, isso é o que acontece quando a gente vai morrer
- eu queria, ver a minha vida toda passar num segundo
- ia demorar menos de um segundo, porque você não viveu taaanto assim
- ah.
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esquizodiálogos
24.1.07
22.1.07
uns menos, uns mais, uns médios, uns por demais

"Love is a gross exaggeration of the differencesim; mas e não é? essa eu li no blog dela, com quem eu falo de rabiscos, rascunhos e artes-a-final; cuidados com córneas e de como doem os olhos, de não ver. ela, que me ensinou you break my heart - I break your nose, tem nariz de pugilista e não sabe nada dos belos narizes que eu deveria ter quebrado mas nunca; e pensando bem, pra quê? não. brenda, bernie, não sou devota do exagero: mas de perto, até sem óculos eu vejo bem. às vezes é tanto contraste que brilha (e cega até, é, eu sei). chamariam isso de quê? se do outro lado do ringue, look at all the lonely people: diálogos de consoantes mudas entre nadas e ninguém; tangencia e não se ouve, passa perto e não se vê. daí algo até em silêncio grita sobre a manta de des-sutilezas das massas. chamariam isso de quê? tanto faz. hoje, não. mas tem dias em que eu acordo e penso 'está tudo bem'. verdade que eu queria que minhas palavras escritas fossem um violino em 'the swimming song'; e nadar mais e mais até chegar a algumas conclusões: 1) não se questiona uma cidade. 2) a fauna marinha é tão profunda quanto perigosa - livrai-me senhor das algas ferozes, das águas turvas, das fossas abissais. mas, quem dera ser um peixe: eu ainda quero mais.
between one person and everybody else."
(George Bernard Shaw)
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21.1.07
It's a hard rain's a-gonna fall

- e se a gente jogasse a canela e o açúcar junto com o bolinho no óleo? grudaria melhor...
- hm, não acho que jogar açúcar direto no óleo seja uma boa idéia... não sei bem que reação pode dar...
- no Clube da Luta, o Tyler diz que dá pra fazer todo tipo de explosivos com ingredientes que qualquer um tem na cozinha... será que dá pra fazer uma bomba com acúcar e óleo fervendo?
- ... não sei aninha, mas esse é o tipo de idéia que eu não gostaria que você tivesse, ok?
- ok, mãe.
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15.1.07
Cowboy Bebop

It's knowin' I'm not shackled
By forgotten words and bonds
And the ink stains that have dried upon some line
That keeps you in the back roads
By the rivers of my memory
It keeps you ever gentle on my mind
["Gentle On My Mind", de autoria de John Hartford (o bonitão da foto acima) foi escrita e lançada em 1967 (que safra esse ano, hein?) e fez sucesso na voz do Elvis em 1969; por falar em rei, Roberto e Erasmo Carlos fizeram a versão em português da música - o famoso hino "Caminhoneiro". (todo dia quando eu pego a estrada / quase sempre é madrugada / e o meu amor aumenta mais). John declarou ter se inspirado para escrever a canção após assistir o filme Doctor Zhivago. Faz algum sentido? Respostas nos comentários, s'il vous plaît. Anyway, a letra é mesmo linda, e John Hartford, o novo habitante da área vip do meu iTunes » ipod » fones » coração (digam olá, rapazes).
Ouve mais aê: http://www.johnhartford.com/jukeboxxx.html ]
12.1.07
We're on a road to nowhere

três da madrugada / quase nada / a cidade abandonada / e essa rua que não tem mais fim // três da madrugada / tudo e nada / a cidade abandonada / e essa rua não tem mais nada de mim // nada / noite, alta madrugada / essa cidade que me guarda / que me mata de saudade / é sempre assim // triste madrugada / tudo e nada / a mão fria, a mão gelada / toca bem de leve em mim // saiba / meu pobre coração não vale nada / pelas três da madrugada / toda a palavra calada / dessa rua da cidade / que não tem mais fim / que não tem mais fim
que não tem mais fim.
11.1.07
Here I go down that [C] wrong road a-[G] gain
O Terminal Rodoviario Tiete conta com nove elevadores (incluindo um para deficientes físicos); 6 escadas rolantes; 42 relógios na área pública; 90 telefones públicos; 10 bebedouros e 938 assentos de espera.
28.12.06
From the west unto the east

2006, um ano mais imaginado que existido; mais repensado que vivido; mais restaurado que construído; doído, doído, doído; que fique aqui morto e enterrado, abandonado numa estrada vazia no meio de algum deserto inventado, pra que não saia, não vaze, não estrague mais nada.
2006, você fica e eu vou. rumo a. to indo. fui.
2006, vá pra puta que o pariu.
15.12.06
I'd rather dance than talk with you
[16:31:56] Mr. Mojo Rising: viu nosso horóscopo, né?
[16:32:00] Eva_é, e não é: non
[16:32:15] Mr. Mojo Rising: veje
[16:32:26] Eva_é, e não é: ai
[16:32:35] Eva_é, e não é: caralho
[16:32:49] Mr. Mojo Rising: fudeu

daí que há tempos achando a vida chata, fui notar que o horóscopo é que não mudava. ou estaria quebrado; ou eu, de ansiosa, lia o mesmo várias vezes naquele dia; à espera de um milagre, reload,-reload-reloadava. sinto muito, não dá em nada. mas uma hora atualiza, e !como é boa essa palavra - com quem mesmo eu falava sobre? e dos clãs que não sentem dores*, museus da latinoamérica e das mudanças climáticas que melhoram a vida sexual das focas pardas. sim, sou vidrada** em notícias, ('atualidades'). e gentes, mas hoje precisei de espaço (quando não tem espaço tem ponto). e pontofinal, que é o que acaba - ou então limpa o salão pra começar outra dança.
impermanência, conheço um de teus nomes. ele me diz das certezas e eu tento não dar risada. e por isso não tenho medo, já morreu o que me assustava. e o que mais tem na noruega, øye? peixes na neve, silêncio, suecos, pianos, guitarras?
sim mas, e agora [sempre ouço] o que eu quero mesmo-mesmo? e a resposta esquiva e tarda. [....................] mas depois vem borbulhando: 1. quero um espaço sem pontos; 2. quero um vão pras minhas palavras; 3. uma trilha ensolarada; 4. música boa no ouvido; 5. quero dançar sobre tudo; 6. coca com gelo, limão espremido [não lembro mais que música era, tanto. mas juro que não era pouco.]
no cemitério percebo:
sofre-se a ausência dos mortos.
* morreu ao pular do telhado no dia em que completava 14 anos, deixando um par de cientistas desolados
** diz verdades e resgata antigas palavras
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esquizotextos
26.11.06
I'm not sleepy and there is no place I'm going to

todo dia é dia dela
pode não ser pode ser
abro a porta e a janela
todo dia é dia d.
há urubus no telhado
e a carne-seca é servida
um escorpião encravado
na sua própria ferida
não escapa, só escapo
pela porta da saída
todo dia é o mesmo dia
de amar-te, a morte, morrer
todo dia menos dia
mais dia é dia d.
9.11.06
SE ELA DANÇA, EU DANÇO

chegou madrugada
e o ipê florido debruçou-se na janela
fim da rua tava em festa
tristonho ele queria ser o sonho dela
quem dera os olhos que debruça em mim
fizessem-me acordar mais uma primavera.
23.10.06
6.9.06
Hang on to your emotions

presente é presente · seja uma música ou um aonde · (avec, ever) · ou uma frase e meu rumo · o frio e o trânsito e eu não · ô madrugada fria da moléstia - fecha essa janela, moço · this place is empty · sempre tem gente demais · cento e quatro emepetrêis do johnny cash e eu aqui · tenho botas e um chapéu · um violão sem corda ré · e uma caixa é só o que resta · ou que falta · as músicas todas ou parte · uma história · as coisas todas em seus lugares · e os lugares presentes das coisas · (onde estão? como sempre, se ajeitando. aqui. sempre aqui.)
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esquizotextos
11.7.06
20.6.06
16.6.06

'crianças, vou contar uma historia'
'era uma vez um urubu'
'ele nao comia nada morto'
'nem vivo'
'por alguns minutos'
'daí ele morreu'
'os outros urubus o comeram'
'fim'
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esquizodiálogos
13.5.06
13.4.06
A luz que sai do olho
Em seu novo filme, Arido Movie, o pernambucano Lirio Ferreira atira no que vê e acerta no que não vê

"É, e não é. O senhor ache e não ache. Tudo é e não é"
(Guimarães Rosa)
"Nada vai mudar" anuncia o homem do tempo, protagonista do filme, em uma das primeiras cenas. E é lançando um olhar de estranhamento sobre coisas que não mudam - como o sertão e a falta d'água, estruturas familiares, disputas de poder e destinos já traçados - que o cineasta Lírio Ferreira costura seu “bangue-bangue existencial científico-musical”, como ele mesmo define.

O tempo e o olhar são, na verdade, personagens centrais desse road movie de diversas viagens, reais e figuradas. Jonas (Gulherme Weber) - o homem do tempo - estrangeiro em sua própria pele, retorna às origens em Vale do Rocha - onde o tempo parou - para enterrar seu pai, assassinado. Seus amigos (o trio formado por Selton Mello, Mariana Lima e Gustavo Falcão) embarcam junto, mas cada um em sua viagem de destino vago, hedonista e emaconhado; e Soledad (Giulia Gam), documentarista pseudo-intelectual, roda o sertão em busca da relação entre a água e o poder; e se deixa seduzir pela conversa de Meu Velho (Zé Celso), profeta da água milagrosa e viagem mística-astronômica-apocalíptica, que dá a deixa: "o olhar é a luz que sai do olho". E ao derramar um olhar atento aos detalhes que compõem delicadamente cenas e personagens, descortina-se uma outra história - conduzida pelo índio Zé Elétrico (José Vasconcelos) - que flutua acima do pequeno drama de Jonas e sua família. A história das coisas que estão ali e ninguém consegue ver: pedras, paisagens, memórias, tramas.
No mais, a trilha sonora, que alterna Renato & seus Blue Caps e Os Pholhas com a nova safra de música pernambucana, entra no clima western do filme e bem se mistura com música ‘brega’, de puteiro. A fotografia, a cargo de Murilo Salles, mostra um sertão feio, real, estranho, glauberiano, sem deslumbre, sem verniz, sem ilusão e sem folclore, sem jegue nem carcaça de boi. Autêntico: ''Isso aqui é, e não é. Mas está sendo''.
Árido Movie é um filme de contrastes: entre nuvens virtuais e reais, entre falta de água e excesso de informação, entre capital e interior; onde sertanejos são astutos e os caras da cidade grande, ingênuos. No meio de tantas referências, citações, relações e duplos-sentidos, pra entender, em uma palavra: olhe.

"É, e não é. O senhor ache e não ache. Tudo é e não é"
(Guimarães Rosa)
"Nada vai mudar" anuncia o homem do tempo, protagonista do filme, em uma das primeiras cenas. E é lançando um olhar de estranhamento sobre coisas que não mudam - como o sertão e a falta d'água, estruturas familiares, disputas de poder e destinos já traçados - que o cineasta Lírio Ferreira costura seu “bangue-bangue existencial científico-musical”, como ele mesmo define.

O tempo e o olhar são, na verdade, personagens centrais desse road movie de diversas viagens, reais e figuradas. Jonas (Gulherme Weber) - o homem do tempo - estrangeiro em sua própria pele, retorna às origens em Vale do Rocha - onde o tempo parou - para enterrar seu pai, assassinado. Seus amigos (o trio formado por Selton Mello, Mariana Lima e Gustavo Falcão) embarcam junto, mas cada um em sua viagem de destino vago, hedonista e emaconhado; e Soledad (Giulia Gam), documentarista pseudo-intelectual, roda o sertão em busca da relação entre a água e o poder; e se deixa seduzir pela conversa de Meu Velho (Zé Celso), profeta da água milagrosa e viagem mística-astronômica-apocalíptica, que dá a deixa: "o olhar é a luz que sai do olho". E ao derramar um olhar atento aos detalhes que compõem delicadamente cenas e personagens, descortina-se uma outra história - conduzida pelo índio Zé Elétrico (José Vasconcelos) - que flutua acima do pequeno drama de Jonas e sua família. A história das coisas que estão ali e ninguém consegue ver: pedras, paisagens, memórias, tramas.
No mais, a trilha sonora, que alterna Renato & seus Blue Caps e Os Pholhas com a nova safra de música pernambucana, entra no clima western do filme e bem se mistura com música ‘brega’, de puteiro. A fotografia, a cargo de Murilo Salles, mostra um sertão feio, real, estranho, glauberiano, sem deslumbre, sem verniz, sem ilusão e sem folclore, sem jegue nem carcaça de boi. Autêntico: ''Isso aqui é, e não é. Mas está sendo''.
Árido Movie é um filme de contrastes: entre nuvens virtuais e reais, entre falta de água e excesso de informação, entre capital e interior; onde sertanejos são astutos e os caras da cidade grande, ingênuos. No meio de tantas referências, citações, relações e duplos-sentidos, pra entender, em uma palavra: olhe.

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