31.1.07

We never did too much talkin' anyway




E assim o murmúrio das aves, o sussurro dos arvoredos e o fundo monótono e esquecido do mar eterno punham à nossa vida abandonada uma auréola de não a conhecermos. Dormimos ali acordados dias, contentes de não ser nada, de não ter desejos nem esperanças, de nos termos esquecido da cor dos amores e do sabor dos ódios. Julgávamo-nos imortais.(...) Nenhum de nós tem nome ou existência plausível. Se pudéssemos ser ruidosos ao ponto de nos imaginarmos rindo riríamos sem dúvida de nos julgarmos vivos. (...)

Desenganemo-nos da esperança porque trai, do amor porque cansa, da vida porque farta e não sacia, e até da morte porque traz mais do que se quer e menos do que se espera. Desenganemo-nos, ó Velada, do nosso próprio tédio, porque se envelhece de si próprio e não ousa ser toda a angústia que é. Não choremos, não odiemos, não desejemos. Cubramos, ó Silenciosa, com um lençol de linho fino o perfil hirto e morto da nossa Imperfeição.

Livro do Desassossego, Fernando Pessoa

26.1.07

E NO ENTANTO NADA IGUAL


leia na minha camisa: i love you

e é sempre outra cidade
vou escrever uma frase pra ler ao acordar
pensei em 'vivemos na melhor cidade'...
uma coisa bem beeeeeeeeeeeibe
assim você me comove
é tão bonita essa música
acho que foi a primeira música que eu achei muito bonita na vida
e por causa desse verso, da melhor cidade da américa do sul
eu me perguntava: mas gente! que lugar é esse
? que lindo!
Eva_it's alright, ma, it's life, and life only:
eu te contei dessa musica já?
nunca
conta
sabe na paulista, perto da brigadeiro luis antonio, tem um predinho com tijolos vazados amarelos - não sei explicar bem os tijolos, são de uma época, x. quando você passar por eles vai reconhecer.
eu tinha acho uns sete anos, tinha acabado de chegar no brasil
estávamos meio de favor aqui e ali, não lembro bem onde, mas era nessa área - comprávamos coisas pro café da manhã no jumbo eletro e saíamos pra andar
eu sempre usava umas camisetas brancas do meu pai como vestido
com um cinto vermelho de verniz
e lembro do sol da manhã batendo no rosto, na paulista
(o sol nas bancas de revista)
de olhar pra cima, pensando 'UAU'.
'a melhor cidade, a melhor cidade'
não sei da primeira vez que ouvi;
mas lembro desse momento, de ter sete anos e ter entendido tudo:
do sorvete, da lanchonete, do azul
da paz da cidade, da MELHOR cidade
dos tijolos amarelos e o sol batendo nos carros, a gasolina
e a camisa, e a cidade
a melhor cidade da américa do sul*
***
VOCÊ PRECISA
em um dia TIPICAMENTE PAULISTANO; que começou ensolarado, choveu, estiou; em um bairro em que foram ocupados absolutamente TODOS os lugares pra estacionar; em um parque de importância histórica às margens de um RIO MORTO; em meio a CINQÜENTA MIL PESSOAS que ilustrariam até pra um extraterrestre a verdadeira acepção da palavra DIVERSIDADE: freaks, modernos, góticos, goas, hippies saídos de alguma câmera criogênica setentista ('me acordem quando os mutantes se reunirem de novo'); de dreads, chapinha, trancinhas, chapéus, moicanos, gorros, bandanas, turbantes, bonés; cantando, dançando, andando de skate, namorando, jogando bola, com os filhos, correndo, fazendo malabarismo, subindo nas árvores, vendendo artesanato, fumando, a maioria ENCHENDO A CARA do vinho mais BARATO que eu já vi, MIJANDO no lugar errado, pessoas comuns na área vip, VIPs enfrentando a fila da entrada por horas (ah, as tradicionais FILAS paulistanas); e depois de assistir o doido Tom Zé loar a CAGANEIRA de Dom Pedro I, incitar a turba a protestar contra a globalização, contra o prefeito, contra o BUSH e contra a globo, que obviamente registrava tudo, só posso chamar de EPIFANIA o que eu senti ao ouvir os versos acima citados serem ENTOADOS, pelos sensacionalíssimos renascidos MUTANTES e por milhares de paulistanos - de nascença, por destino ou opção - bêbados, desafinados, emocionados, todos juntos somos nós, REUNIDOS, uma pessoa só, por ELES que sim, seriam e sempre serão: a tua MAIS PERFEITA tradução.

baby, baby, eu sei que é assim.



P.S.: Rita quem?

It's very nice pra chuchu

25.1.07



- demora anos pra ver a vida passar num segundo?
- não sei, ian
- é tipo uma doença, isso, aninha?
- nãaao ian, isso é o que acontece quando a gente vai morrer
- eu queria, ver a minha vida toda passar num segundo
- ia demorar menos de um segundo, porque você não viveu taaanto assim
- ah.

24.1.07

BENDITO SEJA SEU OVO


 

o que mais importa? temos um novo messias.

um, eu disse? foram cinco.

22.1.07

uns menos, uns mais, uns médios, uns por demais



"Love is a gross exaggeration of the difference
between one person and everybody else."
(George Bernard Shaw)
sim; mas e não é? essa eu li no blog dela, com quem eu falo de rabiscos, rascunhos e artes-a-final; cuidados com córneas e de como doem os olhos, de não ver. ela, que me ensinou you break my heart - I break your nose, tem nariz de pugilista e não sabe nada dos belos narizes que eu deveria ter quebrado mas nunca; e pensando bem, pra quê? não. brenda, bernie, não sou devota do exagero: mas de perto, até sem óculos eu vejo bem. às vezes é tanto contraste que brilha (e cega até, é, eu sei). chamariam isso de quê? se do outro lado do ringue, look at all the lonely people: diálogos de consoantes mudas entre nadas e ninguém; tangencia e não se ouve, passa perto e não se vê. daí algo até em silêncio grita sobre a manta de des-sutilezas das massas. chamariam isso de quê? tanto faz. hoje, não. mas tem dias em que eu acordo e penso 'está tudo bem'. verdade que eu queria que minhas palavras escritas fossem um violino em 'the swimming song'; e nadar mais e mais até chegar a algumas conclusões: 1) não se questiona uma cidade. 2) a fauna marinha é tão profunda quanto perigosa - livrai-me senhor das algas ferozes, das águas turvas, das fossas abissais. mas, quem dera ser um peixe: eu ainda quero mais.

21.1.07

It's a hard rain's a-gonna fall



- e se a gente jogasse a canela e o açúcar junto com o bolinho no óleo? grudaria melhor...
- hm, não acho que jogar açúcar direto no óleo seja uma boa idéia... não sei bem que reação pode dar...
- no Clube da Luta, o Tyler diz que dá pra fazer todo tipo de explosivos com ingredientes que qualquer um tem na cozinha... será que dá pra fazer uma bomba com acúcar e óleo fervendo?
- ... não sei aninha, mas esse é o tipo de idéia que eu não gostaria que você tivesse, ok?
- ok, mãe.

15.1.07

Cowboy Bebop


 
It's knowin' I'm not shackled
By forgotten words and bonds
And the ink stains that have dried upon some line
That keeps you in the back roads
By the rivers of my memory
It keeps you ever gentle on my mind

["Gentle On My Mind", de autoria de John Hartford (o bonitão da foto acima) foi escrita e lançada em 1967 (que safra esse ano, hein?) e fez sucesso na voz do Elvis em 1969; por falar em rei, Roberto e Erasmo Carlos fizeram a versão em português da música - o famoso hino  "Caminhoneiro". (todo dia quando eu pego a estrada / quase sempre é madrugada / e o meu amor aumenta mais). John declarou ter se inspirado para escrever a canção após assistir o filme Doctor Zhivago. Faz algum sentido? Respostas nos comentários, s'il vous plaît. Anyway, a letra é mesmo linda, e John Hartford, o novo habitante da área vip do meu iTunes » ipod » fones » coração (digam olá, rapazes).

Ouve mais aê: http://www.johnhartford.com/jukeboxxx.html ]

12.1.07

We're on a road to nowhere



três da madrugada / quase nada / a cidade abandonada / e essa rua que não tem mais fim // três da madrugada / tudo e nada / a cidade abandonada / e essa rua não tem mais nada de mim // nada / noite, alta madrugada / essa cidade que me guarda / que me mata de saudade / é sempre assim // triste madrugada / tudo e nada / a mão fria, a mão gelada / toca bem de leve em mim // saiba / meu pobre coração não vale nada / pelas três da madrugada / toda a palavra calada / dessa rua da cidade / que não tem mais fim / que não tem mais fim

que não tem mais fim.

11.1.07

Here I go down that [C] wrong road a-[G] gain

O Terminal Rodoviario Tiete conta com nove elevadores (incluindo um para deficientes físicos); 6 escadas rolantes; 42 relógios na área pública; 90 telefones públicos; 10 bebedouros e 938 assentos de espera.

28.12.06

From the west unto the east

eu quero é dar o fora

2006, um ano mais imaginado que existido; mais repensado que vivido; mais restaurado que construído; doído, doído, doído; que fique aqui morto e enterrado, abandonado numa estrada vazia no meio de algum deserto inventado, pra que não saia, não vaze, não estrague mais nada.

2006, você fica e eu vou. rumo a. to indo. fui.

2006, vá pra puta que o pariu.

15.12.06

I'd rather dance than talk with you

[16:31:56] Mr. Mojo Rising: viu nosso horóscopo, né?
[16:32:00] Eva_é, e não é: non
[16:32:15] Mr. Mojo Rising: veje
[16:32:26] Eva_é, e não é: ai
[16:32:35] Eva_é, e não é: caralho
[16:32:49] Mr. Mojo Rising: fudeu

dmtr.org
daí que há tempos achando a vida chata, fui notar que o horóscopo é que não mudava. ou estaria quebrado; ou eu, de ansiosa, lia o mesmo várias vezes naquele dia; à espera de um milagre, reload,-reload-reloadava. sinto muito, não dá em nada. mas uma hora atualiza, e !como é boa essa palavra - com quem mesmo eu falava sobre? e dos clãs que não sentem dores*, museus da latinoamérica e das mudanças climáticas que melhoram a vida sexual das focas pardas. sim, sou vidrada** em notícias, ('atualidades'). e gentes, mas hoje precisei de espaço (quando não tem espaço tem ponto). e pontofinal, que é o que acaba - ou então limpa o salão pra começar outra dança.

impermanência, conheço um de teus nomes. ele me diz das certezas e eu tento não dar risada. e por isso não tenho medo, já morreu o que me assustava. e o que mais tem na noruega, øye? peixes na neve, silêncio, suecos, pianos, guitarras?

sim mas, e agora [sempre ouço] o que eu quero mesmo-mesmo? e a resposta esquiva e tarda. [....................] mas depois vem borbulhando: 1. quero um espaço sem pontos; 2. quero um vão pras minhas palavras; 3. uma trilha ensolarada; 4. música boa no ouvido; 5. quero dançar sobre tudo; 6. coca com gelo, limão espremido [não lembro mais que música era, tanto. mas juro que não era pouco.]

no cemitério percebo:
sofre-se a ausência dos mortos.

* morreu ao pular do telhado no dia em que completava 14 anos, deixando um par de cientistas desolados
** diz verdades e resgata antigas palavras


26.11.06

I'm not sleepy and there is no place I'm going to


 
todo dia é dia dela
pode não ser pode ser
abro a porta e a janela
todo dia é dia d.

há urubus no telhado
e a carne-seca é servida
um escorpião encravado
na sua própria ferida
não escapa, só escapo
pela porta da saída

todo dia é o mesmo dia
de amar-te, a morte, morrer
todo dia menos dia
mais dia é dia d.

9.11.06

SE ELA DANÇA, EU DANÇO


 
chegou madrugada
e o ipê florido debruçou-se na janela
fim da rua tava em festa
tristonho ele queria ser o sonho dela
quem dera os olhos que debruça em mim
fizessem-me acordar mais uma primavera.

6.9.06

Hang on to your emotions


presente é presente · seja uma música ou um aonde · (avec, ever) · ou uma frase e meu rumo · o frio e o trânsito e eu não · ô madrugada fria da moléstia - fecha essa janela, moço · this place is empty · sempre tem gente demais · cento e quatro emepetrêis do johnny cash e eu aqui · tenho botas e um chapéu · um violão sem corda ré · e uma caixa é só o que resta · ou que falta · as músicas todas ou parte · uma história · as coisas todas em seus lugares · e os lugares presentes das coisas · (onde estão? como sempre, se ajeitando. aqui. sempre aqui.)


11.7.06

VA BENE, TOUT VA BIEN

You met me at a very strange time in my life.
 
- You met me at a very strange time in my life.

20.6.06

SÃO DEMAIS OS PERIGOS DESTA VIDA

tyson, com amor

quando
chega sangrando
aberta em pétalas de amor.

16.6.06

ian

'crianças, vou contar uma historia'
'era uma vez um urubu'
'ele nao comia nada morto'
'nem vivo'
'por alguns minutos'
'daí ele morreu'
'os outros urubus o comeram'
'fim'

13.5.06

assista

Tyger! Tyger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?

[William Blake]

13.4.06

A luz que sai do olho

Em seu novo filme, Arido Movie, o pernambucano Lirio Ferreira atira no que vê e acerta no que não vê


"É, e não é. O senhor ache e não ache. Tudo é e não é"
(Guimarães Rosa)

"Nada vai mudar" anuncia o homem do tempo, protagonista do filme, em uma das primeiras cenas. E é lançando um olhar de estranhamento sobre coisas que não mudam - como o sertão e a falta d'água, estruturas familiares, disputas de poder e destinos já traçados - que o cineasta Lírio Ferreira costura seu “bangue-bangue existencial científico-musical”, como ele mesmo define.



O tempo e o olhar são, na verdade, personagens centrais desse road movie de diversas viagens, reais e figuradas. Jonas (Gulherme Weber) - o homem do tempo - estrangeiro em sua própria pele, retorna às origens em Vale do Rocha - onde o tempo parou - para enterrar seu pai, assassinado. Seus amigos (o trio formado por Selton Mello, Mariana Lima e Gustavo Falcão) embarcam junto, mas cada um em sua viagem de destino vago, hedonista e emaconhado; e Soledad (Giulia Gam), documentarista pseudo-intelectual, roda o sertão em busca da relação entre a água e o poder; e se deixa seduzir pela conversa de Meu Velho (Zé Celso), profeta da água milagrosa e viagem mística-astronômica-apocalíptica, que dá a deixa: "o olhar é a luz que sai do olho". E ao derramar um olhar atento aos detalhes que compõem delicadamente cenas e personagens, descortina-se uma outra história - conduzida pelo índio Zé Elétrico (José Vasconcelos) - que flutua acima do pequeno drama de Jonas e sua família. A história das coisas que estão ali e ninguém consegue ver: pedras, paisagens, memórias, tramas.

No mais, a trilha sonora, que alterna Renato & seus Blue Caps e Os Pholhas com a nova safra de música pernambucana, entra no clima western do filme e bem se mistura com música ‘brega’, de puteiro. A fotografia, a cargo de Murilo Salles, mostra um sertão feio, real, estranho, glauberiano, sem deslumbre, sem verniz, sem ilusão e sem folclore, sem jegue nem carcaça de boi. Autêntico: ''Isso aqui é, e não é. Mas está sendo''.

Árido Movie é um filme de contrastes: entre nuvens virtuais e reais, entre falta de água e excesso de informação, entre capital e interior; onde sertanejos são astutos e os caras da cidade grande, ingênuos. No meio de tantas referências, citações, relações e duplos-sentidos, pra entender, em uma palavra: olhe.

27.3.06

TOO MUCH COFFEE



Eva_tout est factice diz:
lalalalalala
Eva_tout est factice diz:
(sorry, nao durmi NADA essa noite, nao fumo há quatro dias e estou em estados alternados de consciência)
|zm| diz:
alternados ou alterados?
Eva_tout est factice diz:
alterados e alternados
Eva_tout est factice diz:
tive uma discussao de relacionamento com um robô

23.3.06

MAS TÃO BONITO

ouça
  Robert Doisneau (1912-1994)

Há vários modos de matar um homem:
com o tiro, a fome, a espada
ou com a palavra
- envenenada.
Não é preciso força.
Basta que a boca solte
a frase engatilhada
e o outro morre
- na sintaxe da emboscada.

[Affonso de Sant'Anna]

20.3.06

FELIZ ANO, NOVO

o novo
não me choca mais
nada de novo
sob o sol

apenas o mesmo
ovo de sempre
choca o mesmo novo

(paulo leminski)

15.3.06

PEIXE-SE

kozyndan

, e no entanto, nada igual. desfolha-se a brisa - qual noite entreaberta; bandeiras ao tempo, suspiros em lá. a lua cheia encoberta. nosso movimento (órbitas sem centro) sussurra um alento espalhado no ar. aprendo a amar, sim, esse momento, como todos os outros ou, ainda mais. (há quanto tempo foi, tudo? quanto tempo ainda virá?) as coisas e seus valores: panos, lenços, aventais; lençóis, chegadas, partidas, quase-idas, vai-vens e ai-não-dá. (ah, dai-nos tudo, é tudo nosso! é tudo en-cantos, sinais, tudo em varais coloridos - tempestade a definhar - em panos limpos, macios, desenhado em traço fino, desajeitado hai-kai, nossas coroas de flores, reis sem reino, amor sem ai. quero tudo e quero agora, quero de-novo e de-mais.) desdobra a vela e te lança, estúpida nave, vai lá, rasgando as águas noturnas e silenciosas do cais; de onde lancei-me em mim mesma, afundei sem respirar, virei peixe, água, polvo, evaporei, deixei sais. ou, delicado origami, nasça em suave desdobrar, qual camélia despencada numa noite sem luar.

14.3.06

A VERDADE SOBRE OS FATOS

(capítulo II - a perguiça do criador)

Estando Deus® refastelado em recamiê eterno, teve sede. E pensou em todo o trabalho que tivera criando o mundo e todas as coisas. Exausto e desgostoso com tanta burocracia para conseguir o líquido sagrado, não teve dúvidas. Criou, à Sua imagem e semelhança, o Homem®; e o chamou de:

- Garçom!

E pediu-lhe uma Coca ("com limão e gelo, Senhor?", ah, como eram perfeitas todas as cousas), e outra e outra e outra. E outra, e outra e outra mais. Até que, tempos passados, o homem pensou que merecia um descanso. Então Deus® criou para ele o dia-de-folga, o churrasco e a laje; e ficou ali, a contemplar a Eternidade e toda Sua maravilhosa criação. Porém, entediado e sem mais gelo, pôs-se a divagar sobre qual seria a forma mais-que-perfeita. Foi quando criou a Berinjela©.

13.3.06

A VERDADE SOBRE OS FATOS

(capítulo I - no princípio era o caos)

A escuridão, as trevas, o negrume. Eis que então Deus® criou o abridor de garrafas. Uma simples e perfeita forma de aço. No segundo dia Deus criou o copo, cristalino e puro como o ar. E o ar, pra ter efeito de comparação. No terceiro dia, criou a pedra de gelo; e com os testes mal-sucedidos, os polos sul e norte. No quarto dia Deus® disse: haja limão; e limão houve. No quinto dia, Ele o fez em rodelas. E o espremeu. No sexto dia Deus® criou a sede, o Tim Maia e os motivos pra beber. Até que, ao alvorecer ressaquento do sétimo dia, com todas as coisas perfeitamente configuradas em formato de idílico paraíso domingueiro, sem que nada faltasse, sobrasse, estivesse quente ou sem gás, Deus® fez:

- Tssssssssssssss.

E a Coca-Cola™ se espalhou sobre a face da Terra.

[Continua! Não percam eletrizante relato sobre a criação do homem, a mulher e a berinjela!]

6.3.06

E É SEMPRE ASSIM


 
"às vezes eu fico imaginando de que forma que as coisa acontece... primeiro vem um dia; tudo acontece naquele dia. ate chegar a noite - que é a melhor parte. mas logo depois vem o dia outra vez, e vai, vai, vai. e é sem parar."

(Lígia, a loba do avenida - em Amarelo Manga)


NOBODY LOVES, NOBODY GETS HURT


Sossega, nega, não se morre de amor nos trópicos. (O tio tenta uma filosofia de consolação para a amiga que sofre e pena entre a Angélica e Augusta como se fosse num inferno verde de fitzcarráldica fábula babilônica labiríntica, danou-se! a menina nas asas da hipérbole-helicóptera.) Te juega, nega, aqui não se morre disso. Se o jovem Werther aqui fosse nascido, até choraria um tanto o seu infortúnio, mas já já algum vagabundo passaria na sua casa e eles iriam tomar um ele & ela (caldinho com cachaça) na Várzea ou no Pina, freguesia do Recife, iam tirar uma onda na barraca de Jesus ou no seu Rainha, na mesma cidadela invicta, iam tomar uma com Franciel, pura ingresia da Bahia, lá nas beiradas do mercado de São Joaquim. (...) Sossega, preta, roga uma praga neste peste e pronto, cai de novo na lama milagrosa do hedonismo. E se a vida atropelar, de nuevo, na mesma curva, anota a placa, menina, e arrisca no bicho.

[Não se Morre de Amor nos Trópicos, Xico Sá]

Recife a cinqüenta reais de distância, corações solitários. Vejam só que oportunidade.

3.3.06


O QUE RESTOU DA CAMISA



"Quando era criança eu queria ser um escritor porque escritores eram ricos e famosos. Eles ficavam em Cingapura e Rangoon fumando ópio em ternos de seda amarelos. Cheiravam cocaína em Mayfair e penetravam pântanos proibidos com um garoto nativo e viviam em Tânger fumando haxixe e languidamente acariciando uma gazela..."

[William S. Burroughs, em ensaio não publicado]

viu, Ronaldo? é assim que faz. ópio em cingapura, pântanos proibidos, gazelas. e não cachaça no Mercearia, domingão no Ibira, e... bem, as gazelas. me abstenho de comentários.

1.3.06

QUARTA FEIRA DE CINZAS NO PAÍS


ah que bom se sesse.
(e todos meus problemas ficassem resolvidos por decreto)

7.2.06

NÃO TER E TER QUE TER PRA DAR

sambando na lama de sapato branco, glorioso
um grande artista tem que dar lição
quase rodando, caindo de boca
mas com um pouco de imaginação
- sambando na lama sem tocar o chão

(mas olha só: por fora filó, por dentro, molambo, cambaleando no toró)

cantando e sambando na lama de sapato branco, glorioso
um grande artista tem que dar o que tem e o que não tem
tocando a bola no segundo tempo
atrás de tempo, sempre tempo vem
- sambando na lama, amigo, e tudo bem.
 

5.2.06

RABO DE PROSA

- Pois é, tô no ramo de cadeiras.

[Suspiro. Depois a maior falta de assunto de todos os tempos.]

- O importante é ver o cara sentado, né?

(do Conversas Furtadas)

2.2.06

DO AVESSO DO SER



as aspas quando voam milharais e sóis, vão sós e não luas - arde ser e fim; qual gaivotas tontas de ser mais de mim: embebedar-se é pouco, é morrer no verão, tropicar pouco a pouco - ou deixar-se ir ao chão? a verdade é o fundo da xícara, eu nunca quis ver; (como a marmota não vê sua sombra, anuncia o calor) não estamos mais presos no mesmo dia, talvez; isso é bom? eu não sei. bem queria escrever em forma de música, ter um sorriso simétrico, saber o que dizer. (¿chegou a hora? por supuesto señor, vai estar chegan-do)

sim, eu também quero mudar a órbita do mundo -- pulando

24.1.06

A VIDA COMO ELA É




(...) But according to Buddha there is also 'right intention'. In order to see what this is, we first must understand what Buddha meant by 'right.' He did not mean to say right as opposed to wrong at all. He said 'right' meaning 'what is,' being right without a concept of what is right. 'Right' translates the Sanskrit samyak, which means 'complete.' Completeness needs no relative help, no support through comparison; it is self sufficient. Samyak means seeing life as it is without crutches, straightforwardly. In a bar one says, 'I would like a straight drink.' Not diluted with club soda or water; you just have it straight. That is samyak. No dilutions, no concoctions - just a straight drink. Buddha realized that life could be potent and delicious, positive and creative, and he realized that you do not need any concoctions with which to mix it. Life is a straight drink - hot pleasure, hot pain, straightforward, one hundred percent.

13.1.06

Eva_love is like a bottle of gin diz:
Olha isso: "Ao invés de ser conhecida como uma referência de beleza, quero ser conhecida como referência de ser humano. Quando acordo de manhã e me vejo no espelho, não penso no creme que vou passar. Me pergunto como posso ser uma pessoa melhor." - Gisele Bündchen

zé_I don't want to be part of the human race diz:
uau. eu sempre penso se tem cigarro ou se eu vou ter que descer pra comprar .

11.1.06

Everybody needs to know it's the year of the rat


cabisbaixa era a rua estranha de um verão de sol sem nada. era o calor, que hoje volta (um dia foi? ou só o escondeu a geada?) era um caminho - esse mesmo - que inda leva, traz, e larga. e como tudo retorna, ou. nunca se foi, nem estava. é o verão: um ano, foi-se. tanto levou, tanto trouxe; nunca houve um não, não deu, não dava. ensolarou avenidas e fez sonhar com estradas. chorei, menos que devia - e sempre nas horas erradas. e foi tanto mar bravio, tempestade, tanta vaga; e tanto vão, de lembrar, tanto, tão - nem medo dava. tarde demais pra não ser, quando é só sim; me lembrara de como era - ou devia - como é bom ser, acordada. choveu tanto. e foram tantos: dias-é, azul-ficantes, azuis de céus, chãos, sacadas. hoje, não tenho mais planos - nem medos ou distrações - mas dinamite guardada.

(não atire na cabeça - os prédios caem, não adianta)
 

10.1.06

DA SÉRIE: PERGUNTAS SEM RESPOSTA

- Mãe, o que é uma pergunta?

 

6.1.06

ÀS VEZES PARECE UM OURIÇO


não saiba, não veja, não olhe agora. está doendo? já sara. não pense, não sinta, não queira. já passa. não viva, não vibre, não ligue. deixe assim como estava. não sangre, não grite, não morra. não fale mais, nada.

(nada disso.)
 

31.12.05

ÚLTIMAS PALAVRAS

Só tenho uma coisa pra dizer pra 2005 e suas águas, todas:

So long, and thanks for all the fish

 

30.12.05

AI, FOFINHOS

        todos tão bonzinhos
acariciam pés de alface entoando velhos mantras
e alimentando passarinhos;
varrem e içam as portas da casa pra brisa fresca entrar, ai
        ! tão evoluidinhos
mente e dentes brancos no varal bem afiados
sem pó nem ferrugem
sem fumaça, sangue ou tabaco;
        usam chinelos pra entrar em casa
e alpargatas pra ir até a horta;
        todos mandam muitos beijinhos
e alisam os gatos
comendo bons grãos, de soja e de trigo
        tem sentimentos bons pra caralho
e amigos muito queridos;
        todos são tão bonitos!
tão secos, limpos e asseados
que te deixam sujo, sozinho e ensopado
        do lado de fora do mundo encantado
e a rota alma órfã escangalhada
, cuspida do avesso como as tripas do consomèe vespertino
e enquanto assistem o rasgar da carne dura na descida da ladeira
você fica ali na noite
cão sem rumo
a ouvir navios
mastigando as flores que ali estavam
! tão ajeitadas
recém colhidinhas
numa manhã natalina ensolarada
mortas afogadas em vaso cristalino
margaridas lobotomizadas
        em cima da branca toalha de linho.

26.12.05

A CONTRA MOLA QUE RESISTE

(tem a força de saber que existe; não vacila, mesmo derrotado; envolto em tempestade, decepado, entre os dentes segura a primavera)

bem-vindo verão de 2006,

i'm starting to feel ok.
 

25.12.05

HAPPY BIRTHDAY, JESUS CRISTO GASOLINE



"Vim lançar fogo na terra; e que mais quero, se já está aceso?

(...) Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada; porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra; e assim os inimigos do homem serão os seus familiares."


(Mateus, 10:34)


Jesus, nêgo: tu arrasa hein!?

21.12.05

tenho um jeito

não se espanta
por aqui vou indo muito bem
de vez em quando
vou vivendo assim
felicidade
na cidade que eu plantei
pra mim

(a vida é assim mesmo eu quero mesmo)

eu quero, eu posso, eu quis, eu fiz;

seja feliz.
 

18.12.05

TAMBÉM É SER, DEIXAR DE SER ASSIM




`Who are you?' said the Caterpillar. This was not an encouraging opening for a conversation. Alice replied, rather shyly, `I hardly know, sir, just at present-- at least I know who I WAS when I got up this morning, but I think I must have been changed several times since then.' `What do you mean by that?' said the Caterpillar sternly. `Explain yourself!' `I can't explain myself, I'm afraid, sir' said Alice, `because I'm not myself, you see.' `I don't see,' said the Caterpillar. `I'm afraid I can't put it more clearly,' Alice replied very politely, `for I can't understand it myself to begin with; and being so many different sizes in a day is very confusing.' `It isn't,' said the Caterpillar. `Well, perhaps you haven't found it so yet,' said Alice; `but when you have to turn into a chrysalis--you will some day, you know--and then after that into a butterfly, I should think you'll feel it a little queer, won't you?' `Not a bit,' said the Caterpillar. `Well, perhaps your feelings may be different,' said Alice; `all I know is, it would feel very queer to me.' `You!' said the Caterpillar contemptuously. `Who are you?'

14.12.05

You don't look different, but you have changed

lemon jelly
você bem sabe de onde veio, e até imagina pra onde vai; só não sabe o que fazer com isso - uma porrada de batatas, e o tempo e o vento, num suave desmaiar. (vê-se ao longe algo que parece uma luz, ou uma bexiga, ou um albatroz; é favorável atravessar?) pode-se plantar, sim, mas não hoje, aqui é mar. impermanente ele, é. e mais: se o tempo corre como um rio, e você em sentido contrário, é quase o mesmo que ficar. mas se você fica, com o tempo e o vento a favor, é como se fosse ir: é você, tuaregue, e toda a areia do deserto a passar. (e a onda mais perigosa do mundo vem, mas você não está mais lá). a mesma areia fina que veio, vem, virá, há e é, e um dia foi-se e cobriu seus ancestrais. dia após dia, eras e eras ¿é assim que eu sabia ser? redemoinho marinho, folhas ao vento, moedas no chão? (...) respirei fundo e o ar salgado me fez ver e viver mais. na beira do abismo, na borda imensa do mar, basta um passo - um só gesto - e não é (nunca mais será) aquele mesmo lugar.

10.12.05

PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

então, levando em conta a escala das 10 piores coisas que poderiam acontecer, considero criar um tópico que seja: '11_mais de dois itens ao mesmo tempo'. tipo sofrer com frustrações emocionais, stress, insonia; desconforto moral ou espiritual; frustração devido a limitadores práticos, como dinheiro; e com a possibilidade de tsunami, terremoto, ameaça bacteriológica ou godzilla na sua cidade.

isso é só um exemplo, claro.
 

9.12.05

DE COMO É, MESMO

(abrir os olhos e acordar)

1. primeiro é o tédio, desespero, engrenagens-nhec-nhec-nhec-nhiiiiiiic
2. falta graxa, sei lá
3. de repente, uau. tudo encaixa plec-plec-plec-plá
4. não vou dizer que não dói às vezes, mas a cabeça aaaaaaaaaaaaa
5. ganha ar; oxigena-a-a-aaaaaa
6. faz assim, ó, lembra:
7. ( . . . )
8. (bom demais)
9. daí, a gente espreguiiiiiiiça e...

¿...quando o verão vai chegar, hein?

 

3.12.05

A DAY IN THE LIFE

sou o que sou; e sou mais de mil e ninguém (sangro, sim, quando me firo; às vezes sou humana e choro, pfff. quando acho graça rio - e quando não, me apavoro). sim, sou só eu mesma - nunca, porém, o suficiente (no entanto hoje, se mais fosse, seria excessivamente). e é só mais um dia em minha vida, sendo assim, 'o que parece'. então, que me resta agora? o que me toca e compete? amar esse dia único. beijar esse tempo lúcido. sair de entre as ferragens de um roteiro estúpido. tijolos numa nuvem, palacete úmido. os olhos embotados, mas sem conteúdo. sofrer na contramão, atrapalhando tudo.

 

30.11.05

LEMBRE-SE (FORAM AS INSTRUÇÕES)

"Oh, I know!" exclaimed Alice, "it's a vegetable. It doesn't look like one, but it is." "I quite agree with you", said the Duchess; "and the moral of that is--'Be what you would seem to be'--or if you'd like it put more simply--"Never imagine yourself not to be otherwise than what it might appear to others that what you were or might have been was not otherwise than what you had been would have appeared to them to be otherwise."'



"Oh, agora sei!", exclamou Alice. "É um vegetal. Não parece vegetal, mas é." "Concordo plenamente com você", disse a Duquesa, "e a moral disso é... 'Seja o que você pareça ser' - ou, se quer que eu fale de forma mais simples - 'Nunca imagine que você não é senão o que poderia parecer aos outros que o que você foi ou poderia ter sido não era senão o que você tenha sido que lhes teria parecido diferente'."
(Lewis Carroll)

28.11.05

Claro que nós fomos

O balanço da redação da Trip do Claro que É Rock, visto do palco, da platéia e até do ambulatório

O ingresso era caro, o lugar fora de mão, o trânsito nas redondezas era digno de hora do rush paulistano em sexta-feira de chuva, o estacionamento dito 'oficial' mais parecia clandestino, com direito a carro atolando e congestionamento; a fila por uma cerveja era quilométrica, a noite era de gelar os ossos. Mesmo assim, valeu a pena para ver de perto Flaming Lips, Iggy Pop, Sonic Youth e Nine Inch Nails na mesma noite, entre uma corrida de um palco para outro. Aqui, os comentários de parte de nosso staff que assistiu ao Claro que é Rock - do palco (de penetra), do ambulatório, ou disputando espaço (e ar) na multidão.



Fantômas  Mike Patton não fez concessões e apresentou um show experimentalista, barulhento e absolutamente sem hits - mas o público se manteve ali, fiel (provavelmente formado mais por fãs do finado Faith No More do que por entusiastas do obscuro e esquisitão Fantômas, claro). Eduardo Fernandes, ex-editor do site e fã da banda, tentou explicar o show que ninguém aqui se arriscou a resenhar: “Não se explica com palavras. Você tem que ter passado sua vida ouvindo metal e trilhas sonoras de filmes de suspense. E conhecer o Jhon Zorn (o psicopata do jazz), claro”.


Flaming Lips
É, caros assessores da Claro... não adianta negar credencial que eu dou um jeito. Um velho truque (que convém manter em segredo) me colocou em cima do palco do Flaming Lips. Normalmente seguranças me escorraçariam, mas com aquele monte de gente vestida como bichos de pelúcia ficou fácil: “Sou amigo do Sapo ali...”. Bem, a resenha: há quatro anos que cubro música para esta Trip. Por conta disso, algo me perturba há tempos. Meu ouvido calejou de tanto show. É como se nada me emocionasse de fato. Gosto, me divirto, admiro, tudo certo... Mas achava que estava morta minha capacidade de deslumbramento com uma banda ao vivo. Santo Flaming Lips! Como um culto religioso de agnósticos convictos, Wayne Coyne, o pastor, fez a minha calejada cabeça flutuar. Não só a minha, é verdade. A pista lotada de gente que mal conhecia a banda se rendeu e foi arrebatada. Poupo-me de detalhar o som, para não cair nos clichês da “psicodelia” nem vou descrever os balões e bolhas que inundaram a platéia. O que interessa é que a banda conseguiu – indo na contramão de todo o rock cool de hoje em dia – nos lembrar de que há pouco tempo para ser feliz. Então, fica aqui registrado o milagre do carisma de Coyne em um dos melhores shows da minha vida: aleluia, Senhor. Eu ainda fico pasmo. - Bruno Torturra Nogueira, repórter da Trip

Do ambulatório, 23h45 - O show proporcionado por Wayne Coyne, o Willy Wonka dos indies, é assim, de fazer chorar criança crescida. Serpentinas, bexigas, bichinhos de pelúcia, e aquela bolha gigante passando por cima das nossas cabeças: uma experiência única. Mas faltou ar em meio ao mar de gente, portanto o jeito foi sair abrindo caminho rumo à brisa fresca da noite. O público, dócil e encantado pelo show, cedia espaço facilmente, como num sonho, ao som de "Race for the Prize". Os efeitos da lama em que se transformara o gramado e gelava os ossos já se faziam sentir enquanto o Flaming Lips mandava “War Pigs” do Black Sabbath. Câimbras fortes em uma perna, depois na outra. Tentando manter a dignidade, me dirigi calmamente ao ambulatório, único lugar seco para quem estava do lado oposto do lounge. “Senta aí”, sugeriu a enfermeira, sem ao menos se levantar, após tomar conhecimento da 'gravidade' do meu quadro clínico. Meus companheiros de infortúnio: um sujeito com camiseta do Ramones e chapéu-coco, que pediu uma aspirina e ficou falando ao telefone; e uma garota que bebia água tranqüilamente (fornecimento de água: grátis e rápido no ambulatório; R$ 3 no bar, fila de meia hora). - Eva Uviedo, coordenadora de mídias eletrônicas
Iggy Pop 
“We’re the motherfucking Stooges!” Assim começou a visceral apresentação da banda que deu à luz o punk, muito antes de o punk saber o que era ou de saberem o que era o punk. São Paulo 2005 virou Detroit 1969 e, conduzidos pelo transe ensandecido de Iggy Pop, todos pulavam e se entregavam ao som como se estivessem num clube sujo, apertado e esfumaçado da cidade dos motores. Como não se entregar àquilo, quando o vocalista de quase 60 anos se joga, dança e estupra amplificadores tal qual fazia aos 20? E eram os Stooges pelo amor de Deus! A banda que representa a energia mais suja e primitiva que o rock jamais teve. A formação era quase a original. Guitarra e bateria a cargo dos irmãos Asheton, só faltou o baixo de Dave Alexander – bem substituído pelo lendário Mike Watt. Em meio a uma infinidade de palavrões (fuckingBrazilmotherfuckercocksuckerfuckingsong), Iggy cantava os clássicos dos dois primeiros discos da banda. “Loose”, “I Wanna Be Your Dog”, “TV Eye”, “Funhouse” explodiam dos alto-falantes, bem alto, como deve ser em todo festival de música. “No Fun”, com os fãs dançando no palco, depois de o invadir, a convite de Iggy, foi inesquecível. Não dá para explicar direito o que aconteceu. Foi apenas cru. Algo para ser sentido e ouvido, não contado. - Filipe Luna, repórter da Trip
De volta à enfermaria, 0h41 - Pico crowdeado. A performance esquizofrênica do Stooges lotou o ambulatório e deu trabalho para as amigas enfermeiras. Os bombeiros chegavam carregando roqueiros inertes e de All Star enlameados. “Ele está vomitando sangue” – exagerava o populacho. Duas garotas embriagadas chegaram, carregadas, ao som de “Not Right”. E um contundido não parava de exibir, empolgado, um fio de cabelo branco, comprido, “arranquei do Iggy Pop”. Farta distribuição de aspirinas para indies de ouvidos sensíveis. - Eva Uviedo, coordenadora de mídias eletrônicas

Sonic Youth
E lá surge Kim Gordon, a mulher mais classuda do rock (se cuida PJ Harvey), do alto dos seus 52 anos, sussurrando “Patter Recognition”, música do último CD da banda, Sonic Nurse. Vinte anos depois o Sonic Youth ainda se reinventa e faz o que bem entende. No lugar de um set list para agradar fãs, repleto de sucessos, como foi o show do Free Jazz em 2000, uma apresentação introspectiva, fiel à sonoridade dos três últimos álbuns do grupo. Deles, vieram também “Ummade Bed” e “Empty Page”. A banda seguiu trocando dissonância por melodia (e vice-versa) em poucos acordes, como só eles fazem. Show para quem gosta distorções, microfonia e introspecção. Não deu para pular, não era show para dançar, mas para assistir Thurston Moore, Lee Ronaldo e Gordon tirando ruídos de suas guitarras. O som estava baixo? Sim. Faltaram músicas? Muitas – “Dirty Boots”, “100%”, “Sugar Kane”, mas “Teenage Riot” estava lá. Ainda assim, era o Sonic Youth. Precisa mais? - Bruna Bittencourt, repórter do site da Trip
Saideira, 1h30 - O ambulatório bombava de gente, muitos apenas cansados, no fim do show do Sonic Youth. Duas pessoas deitadas no chão do lugar, se recuperando da bebedeira, balançavam o pé no ritmo de  “Teenage Riot”. Pela espaço do festival, os sinais do cansaço: dezenas de pessoas sentadas ou deitadas em plásticos sobre a lama fria. As enfermeiras sentadas na maca pareciam não se emocionar com nada: “Ainda tem mais um show?? Às 3 horas vou embora daqui”. Bem, eu já estou indo, fazer um escalda-pés. - Eva Uviedo, coordenadora de mídias eletrônicas
Nine Inch Nails
O que você faz quando está deprimido? Assiste a filmes água-com-açúcar escondido debaixo das cobertas? Fica ouvindo Robertão ou Odair José (até um Tim Maia, se a dor for de corno)? Isso é o que o homem comum faz. Trent Reznor não. Ele faz barulho. Tá bom, ele faz música, algumas muito bonitas, mas é tudo barulhento demais. Pelo menos ao vivo é. Foi uma zoada desgraçada, o som muito mais alto do que em todos os shows anteriores. Aquela techneira-rock’n’roll-metaleira-deprimida pipocando e fazendo uns baterem cabeça, outros correrem para casa. Show de luzes estilo Hollywood e um pobre de um guitarrista que corria de um lado para o outro fingindo ensandecimento. Para quem tinha visto Iggy Pop, não passava de pose – precisa treinar mais na frente do espelho. A melhor música do show foi “Closer”, disparado, porque era a única suportável. Disseram que “Hurt” foi linda, mas eu estava cansado demais para agüentar tamanha tristeza e fui embora. Poxa, tá deprimido, chora sozinho em casa. Precisa perturbar todo mundo? Cara inconveniente...  - Filipe Luna, repórter da Trip

Fotos por: Loana Silva Pinto (Sonic Youth), Bruno Torturra (Flaming Lips) e Thais Rabay (Fantomas)

23.11.05

A RAIVA



A raiva ou hidrofobia é uma encefalite infecciosa que acomete praticamente todos os mamíferos: carnívoros - canídeos (cão, lobo, raposa, hiena, chacal), felídeos (gato), quirópteros (morcegos), roedores (ratos e esquilos), ruminantes (bois e veados), monogástricos (cavalo), primatas (homem).

Tanto no homem como nos animais, quando os sintomas da moléstia se manifestam já não há mais cura possível - a morte é certa. Assim, todo tratamento deve ser feito durante o período de incubação, quando o paciente não apresenta sintomas e não manifesta queixas. No homem, o primeiro sintoma é uma febre pouco intensa (38ºC) acompanhada de dor de cabeça e depressão nervosa. Em seguida, a temperatura torna-se mais elevada, atingindo 40ºC a 42ºC. Logo a vítima começa a ficar inquieta e agitada, sofre espasmos dolorosos na laringe e faringe e passa a respirar e engolir com dificuldade. Os espasmos estendem-se depois aos músculos do tronco e das extremidades dos membros, de forma intermitente e acompanhados de tremores generalizados, taquicardia e parada de respiração.

A hospitalização deve ser o mais confortável para o paciente, devendo-se tomar todos os cuidados possíveis para manter seu conforto. Qualquer tipo de excitação pode provocá-los (luminosa, sonora, aérea). Freqüentemente experimenta ataques de terror e depressão nervosa, apresentando tendência à vociferação, à gritaria e à agressividade, com acessos de fúria, alucinações visuais e auditivas, baba e delírio.

Em se tratando do cão, deve-se ter em mente que as inclusões só aparecem com o evoluir da doença, razão pela qual não se deve sacrificar precocemente o animal mordedor, mas sim observá-lo e só matá-lo para a retirada do cérebro e pesquisa dos corpúsculos típicos quando aparecerem sintomas que levem à suspeita de raiva. O animal com suspeita de raiva deve ser isolado e ficar em observação ou sofrer eutanásia para ser realizado um exame do cérebro e tronco cerebral em busca do vírus.

Quando mordidos por animais comprovadamente contaminados, animais não-vacinados devem sofrer eutanásia ou, se o dono não quiser, devem ser vacinados e ficar confinados a um estrito isolamento; se estiver sadio no final do sexto mês, poderá voltar ao seu dono.
 

17.11.05

- minha vida já é um livro aberto, na página errada.
- puta saco, isso.
- 404 not found.
- sua vida é um site aberto então.
- é.
- o meu é um site aberto numa página com erro de script; fica pulando aquela janelinha 'erro na pagina, deseja depurar?'
 

11.11.05


MIKE TYSON,
gente finíssima. Nunca nos decepcionou.


De passagem por São Paulo, o ex-boxeador visitou os pontos turísticos mais bacanas da cidade: a rua Aurora, a Augusta, o Bahamas, o Love Story, uma delegacia e um fórum - ao qual compareceu vestindo uma camiseta da seleção argentina autografada pelo Maradona. No DP, fumou muito, apagou os cigarros no balcão e saiu sorrindo. "No problem", disse. Ele foi parar lá por ter feito algo que qualquer um faria com o maior prazer, tipo arrancar a câmera de um cinegrafista do SBT, bater com o equipamento na cabeça do infeliz, e esmigalhar a fita de vídeo com apenas uma mão.

Em entrevista à Folha de S.P., declarou: "Sou um cara legal. Nunca estuprei ninguém. Nunca matei. É só que às vezes quero ficar sozinho, por isso perco a paciência [visivelmente emocionado]. Você tem de ir agora. Vá. E se você disser algo disso [ficou com os olhos vermelhos] para alguém, mato você da próxima vez que o encontrar."

Não é tudo que se espera dele? Volte sempre, Mike! Amamos você!

(*) Galeria de esquizoídolos

10.11.05

SOBRE UMA MONTANHA EM MOVIMENTO

entre o que é certo e o incerto, e o não-ser e o ser-demais, paira uma música suave, que faz que vai mas não vai, faz que fica, faz que foi-se, faz rodopio e se esvai, dança na ponta de pregos, atravessa sem sangrar; fez-se de mesa e cadeiras, mas não deixou-se sentar; faz-se de doce, de amarga, de difícil de tragar, de fumaça de cigarro e de café, faz acordar, faz parecer-se com sonho, ter certezas, duvidar, entender as coisas todas, confundir-se entre o que é, foi, e o que está; mas soa em alto-falantes noite e dia sem calar, vaza, marola certeira, preenchendo céu e chão, nota após nota soando, sem sentido ou direção; um som que só ecoa, existe. sempre: é, sim - e nunca em vão.
 

1.11.05

COLOCANDO OS PROBLEMAS EM PERSPECTIVA

a fim de encarar a vida, o universo, o passado, o presente e tudo o mais de forma realista - nem mais nem menos do que ele é, seguindo conselhos amarelo-fofinhos - consultamos cientistas, filósofos, historiadores e astrólogos; assim, pesquisando, analisando e torturando formas de vida inferior, desenvolvemos internamente a escala definitiva, suficientemente vaga e intransferível dos Oh Que Problema, Que Problema Insolúvel*. Sendo 10 = 'a pior coisa que pode acontecer' ou 'problema realmente sem solução'; e 1 = 'problema pequeno, medíocre e comum, de resolução relativamente simples a não ser em caso de chuva ou descontrole hormonal' (valor este, 1, absolutamente divisível em frações irrelevantes e indignas de serem enumeradas aqui), aí vai:



Problemas possíveis, por ordem de insolubilidade
10_ destruição do planeta
09_ tsunami, terremoto ou ameaça bacteriológica ou Godzilla na sua cidade
08_ perda de um ente muito muito querido
07_ doença grave ou perda de um dos sentidos
06_ perda de um ente queridinho
05_ perda de todos seus bens em um incêndio
04_ frustrações sentimentais, depressão, stress, insônia
03_ desconforto moral ou espiritual
02_ frustração devido a limitadores práticos, como dinheiro, diploma ou passaporte
01_ pequenos aborrecimentos práticos como ir buscar um bloco de notas em outro ponto da cidade, terminar um job sem um briefing decente, ou subir a ladeira com mais sacolas de compras do que é razoável carregar.

munidos dessa tabelinha, nos sentimos com mais capacidade de avaliar a real proporção das questões da vida, da morte, da transitoriedade, da perda, do sofrimento, do amor, enfim, da importância das coisas todas, desde o preço do iogurte até o valor da vida da lagarta-gatinho que distraidamente pisamos, dos nossos hiper-inflacionados sofrimentos particulares até o indecifrável sofrimento da graminha que cresce entre os ladrilhos da escada do cemitério onde amanhã choraremos os finados próximos, distantes, novos ou antigos, queridos ou não. mortos ou não.

(*) obs.: a listagem acima não tem valor científico. os valores podem variar de pessoa pra pessoa ou de um dia pro outro. dependendo do ente queridinho, perder os bens num incêndio pode ser pior. perder, perder perder. é, não gosto. não consuma fora da data de validade. beba coca-cola. abimonize-se e seja menos infeliz.